segunda-feira, abril 13, 2009

Dia de merda

No aniversário de 30 anos de casamento, a coroa havia colocado sua melhor lingerie, e, perfumada, estirada na cama, esperava o marido. Ele entra no quarto.

- Dia de merda! Esses fudidos da empresa só botam no meu cu! Acham que sou burro de carga? Ainda peço demissão só pra ter o prazer de mandar o chefe ir pra casa do caralho!

A mulher, com voz lânguida, se insinua:

- Oi, benzinho. Sabe que dia é hoje? Tenho um presentinho pra você...

A fim de dormir e evitar sexo ruim, o marido abre o jogo:

- Agora mais essa? Sua putinha, eu te traio há 25 anos, no puteiro perto da empresa. Acha que chego todo dia tarde e sem grana pra quê? Pra olhar essa tua cara feia? Dá espaço na cama, porra! Anda, anda!

A mulher se põe em prantos. O marido deita na cama e dorme, pra esquecer o "dia de merda".

segunda-feira, agosto 25, 2008

Conto: No fliperama

Gustavo pagou uma ficha para a ficante, enquanto observava as garotas que passavam pela porta do recinto. Ele gostava de observá-las, mas vez ou outra sua concentração era quebrada.

- Gustavo, qual eu escolho?
- Errr... Escolhe esse aí... de branco.
- Esse aqui, com a faixa vermelha?
- Sim, sim.

Passa uma linda morena, com nádegas que deixam os hormônios do garoto à flor da pele.

- Ai, Gustavo, esse aqui não é aquele que faz o "choruque"?
- Como?
- O "choruque"... Ele pula com o braço levantado...
- "Shoryuken" - corrige Gustavo.
- Pois é, o "choruque"....
- ...
- E então?
- E então o quê? - responde virando os olhos para fora do lugar, a morena havia passado.
- Como faz o "choruque"?
- Porra... Meia-lua pra frente... Não, é frente... Depois quase uma meia-lua... Soco.
- Mas é meia-lua inteira ou meia-lua minguante?

Gustavo passa a mão no rosto, e aperta-o, como forma de reprimir a raiva.

- Gustavo, acho que perdi.
- Foi?
- Foi. Eu fiquei tentando fazer o "choruque"... Acabei perdendo.
- Tá certo... Vamos dar uma passadinha lá em casa... Fazer alguma coisa.
- Tá bom.

Ele olhou para o decote de sua ficante, a calça justa... Até que falou.

- Sabe, você é muito bonitinha... Pena que jogue tão mal.
- Obrigado pelo elogio, mas não pela crítica. O que a gente vai fazer na sua casa?
- A gente podia se dar uns beijinhos... Depois eu te emprestava uma revista que ensina melhor a fazer o "choruque".
- É "shoryuken", Gustavo.
- É... Eu sei.

 

quarta-feira, julho 09, 2008

Conto: Na lanchonete

- Quero cinco coxinhas.
- Pois não, doze Reais.
- Ué, mas ali tá dizendo: "Cada coxinha custa dois Reais". Não seriam dez Reais o preço?
- Não.
- Mas...
- Não.

No carro:

- Puxa, não acredito que ele me cobrou doze Reais por algo que custava dez.
- E você pagou, Fonseca? Não acredito!
- Ah, eram só dois Reais...
- Não acredito, Fonseca! Você é um imprestável! Quando vai tomar uma atitude que preste na sua vida?

Abrindo a porta do carro em alta velocidade, Fonseca empurra a mulher para fora, e a vê rolando pela estrada. Finalmente, Fonseca tinha tomado uma atitude.

terça-feira, julho 08, 2008

Conto: O Jornalista

No curso de jornalismo, a garota se abre com o amigo:

- Sabe, te acho tão gatinho!
- ...
- Parece ter um pintão!
- ...
- É grande, né?
- Olha, em vez de ficar falando do meu pinto, por que não desenvolve seu dom em jornalismo?

Anos mais tarde, o garoto ficou mundialmente conhecido como o jornalista mais gay do mundo.

domingo, julho 06, 2008

Conto: Érika

A refinada Érika, de nariz empinado, passava pelos meninos, vanglorando-se, como sempre, dizendo-se acessível para pouquíssimos.

Um dos garotos dirige lhe palavra:

- Com licença, garota.

Apalpa os seios dela.

- São piores do que eu pensava. Você é um lixo! Some daqui!

Érika fugiu chorando. Nunca mais iria achar-se superior aos outros.

Conto: Oséias

Morando só com o avô, naquela casinha pobre, Oséias ouve o velho falar:

- Ai, meu netinho... Tá dando aquilo no meu coração de novo, corre lá na farmácia e compra o remédio que o doutô falô!
- Cum que dinhero, vô?
- Ai... Pega os cinco real em cima da geladera... mas vai rápido.

Oséias sai correndo da casa, e no caminho da fármacia, vê que o dono da padaria tá fazendo promoção. Tem bolo, sonho, biscoito, pão doce... Tudo baratinho.

- Seu Manoel, quanto custa esse bolo de chocolate aqui?
- Cinco Reais, meu filho.

No dia seguinte, chega do interior um tio de Oséias, pra levar o corpo do velho pra velar em sua cidade natal.

sexta-feira, março 28, 2008

Conto: Gabarito

Matheus estava irradiando alegria quando foi zombar de Chicão, o menino mais burro da sala de aula.

- E aí, Chicão! Outro zero na prova de redação?
- Pois é, tá difícil aqui...
- Que pena! Gabaritei redação.
- ...
- Aposto que você queria ser inteligente que nem eu, né?
- ...
- Eu sei que queria. Todos querem.
- ...
- Tá vendo? Por isso você tira zero em redação! Não sabe nem argumentar, seu monte de lixo.

De súbito, Chicão tira uma faca do bolso e crava no peito de Matheus. Sem ter como contra-argumentar, Matheus apenas observa a vida esvaindo de si mesmo, enquanto pensa o quão foi bom o argumento de Chicão, sem adornos, sem frescuras, curto e grosso, direto ao ponto. Mais eficiente, impossível. É suficiente um súbito momento em que a intelectualidade deixe as rédeas escapolirem, para que a brutalidade assuma o controle e mostre um poder muito além do domínio da razão e da mera filosofia.
 

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Conto: Tempo de vida

O velho Caxias, sempre incomodado pelas atitudes de seu jovem vizinho Maurício, voltava a reclamar:

- Ô, moleque filho da puta! Vai atirar esse rojões na puta que te pariu!
- Qual é, vovô? Perdeu o espírito do ano novo? É época de paz, purificação da alma... Os fogos de artifício representam isso.
- Pra mim, essa comemoração é um bando de baboseira junto!
- Ah, tô entendendo... O senhor tá no fim da vida, temendo a vinda da morte. Tem medo que ela esteja escondida num simples rojão. Um infarto pelo susto do barulho, talvez? Quem sabe? Hahahaha...
- Moleque desgraçado!
- Fica calmo, velhote. Vou comemorar o ano novo com muita bebida e rojões, comemorando cada breve explosão dos fogos como a brevidade da tua própria vida! Hahahaha! A gente se encontra no teu velório!

Caxias chora. Estava Maurício certo? A morte chegando, o vigor de outrora indo embora, junto com o apreço pelas comemorações. É tão cruel e injusto assim, vendo o mais jovem zombar impiedosamente do mais velho? E nutre o choro.

É chegada a virada do ano. O embriagado Maurício, no esplendor da juventude, abre a caixa dos rojões, jogando-os ao redor do seus pés. Pega um deles, acende e mira para o céu. Um deslize e o rojão cai. As faíscas acendem os outros, deixando o rapaz no meio de um fogo cruzado. Diversos estilhaços dos rojões acertam a artéria de Maurício, levado às pressas para o hospital. A quantidade de sangue perdido era grande demais, e o óbito do jovem foi declarado na primeira hora do ano novo.

Pouco depois, os parentes e amigos velavam o corpo. Dentre os presentes, lá estava o velho Caxias, rindo, sabendo que a vida é imprevisível, incontrolável e joga do jeito que ela achar melhor. E ela achou melhor dar uma lição no imodesto Maurício, que quis prever o imprevisível, deixando que a alma do rapaz presenciasse o velho Caxias cuspindo no seu cadáver, rindo, rindo e rindo, no esplendor de uma vida longa e bem-vivida, que joga ao lado do acaso e da sorte.