Verärgert gegen traurigkeit
Há certo tempo percebi que a raiva é mais fraca que a tristeza. Ontem, o Flamengo (time para qual eu torço) empatou com o São Paulo. Não fiquei triste, fiquei brabo. Futebol não me causa tristeza, me causa raiva. Mesmo querendo que o Mengão tivesse ganho, não tive minha vida abalada por isso. Eu estava com raiva, mas não me impediu que eu pudesse rir algumas vezes, ou que eu pudesse facilmente desviar minha atenção para outra coisa. Se fosse tristeza, seria diferente.
Atualmente (não no exato momento, mas num período em que vivo), estou triste. Há pouco mais de meio ano tive uma experiência que me proporcionou a tristeza que dura até hoje. Apaixonei-me por uma garota no ano de 2005 e, poupando-lhes de muitos detalhes, vivi um intenso amor platônico até o início de 2006, quando, querendo me livrar do tormento de nunca tentar iniciar algo com minha amada, declarei meus sentimentos para ela (de forma meio que vergonhosa). Não sei qual critério ela usou para decidir, mas sendo eu feio, gordo, anti-social e de baixa inteligência, creio que ela seguiu qualquer lógica, menos a masoquista, para me dispensar. Eu sou pessimista e realista (será que é errado usar "pessimista e realista"? São quase sinônimos), jamais pensei que ela pudesse me aceitar como namorado, um dia casar comigo, constituirmos uma família e sermos felizes (ou talvez eu tenha perdido meses sonhando com uma vida ao lado dela e não queira contar). Aliás, declarei meus sentimentos mais pensando em livrar-me daquele fardo do que por esperança de que fosse dar certo. Entretanto, o fato de tudo ter dado errado não comandou a bateria de tristeza que me atingiria, o problema foi o "depois". Ela começou a distorcer algumas coisas, fazer algumas merdas... E eu tomei os erros dela como justificativa para eu mesmo fazer minhas próprias merdas com ela, posteriormente. Chegou a um ponto em que ambos só faziam cagada, mas nenhum admitia e um achava que o outro era o vilão.
Depois de várias besteiras que fizemos, nunca mais nos falamos... Aliás, nem antes de eu ter me apaixonado por ela nos falávamos além dos cumprimentos. Apaixonei-me de forma que 99% dos que sabem a história riem. Ela me deu um simples abraço, compadecida por uma situação por qual eu passava na época... Só isso. Praticamente, assim dizendo, somente minha mãe havia me dado um abraço sentimental, antes... Aquele abraço que não quer dizer só um cumprimento, aquele abraço que quer dizer mais. Claro que não interpretei o abraço como "estou te abraçando porque te amo", mas pensei que pudesse ser alguém para o qual eu não era qualquer um. Foi um abraço quente, caloroso... Foi rápido na prática, duradouro na teoria... É como se eu saisse de todo o sofrimento mundano e caísse nos braços daquela menina que me acolhia, onde eu me sentia seguro e confortado. A partir daí, foi plantada uma semente que foi germinando pouco a pouco, sem eu saber. Para mim, naquela época, aquele abraço foi só um prazer momentâneo, sem futuras consequências. Aí, na sala de aula, vez ou outra um colega apontava uma menina gostosa da nossa turma e, por mais que a menina fosse fisicamente avantajada, eu sempre desviava o olho para a menina que havia me abraçado, eu não sabia por quê. Sinceramente, a garota do abraço, embora bonita, não é gostosa, daquelas que levantam uma multidão de homens. Também é impossível dizer que ela é feia, pois ela é bonita... Só não tem aqueles peitões e bunda grande como algumas outras meninas tinham. Mesmo assim, eu ficava perguntando-me: "Porra, Zé... Por que você olha pra essa menina, enquanto há outras bem mais gostosas por aí?". Eu não sabia. Eu era alienado, naquele tempo... Achava que o negócio era pegar mulher e tudo o mais... Mas quando eu começava a suar só da minha menina chegar perto, só de ela falar comigo, ou só de eu apreciar o lindo rosto dela com os cabelos negros e lisos, soltos como um véu da noite, eu sabia que ela não era qualquer uma para mim. Poupando-os de muito mais detalhes, fui apaixonando-me cada vez mais, até eu perceber que eu estava amando-a. E assim surgiu o amor platônico descrito no segundo parágrafo do texto, com o resultado já conhecido por vocês.
E por que tudo isso? Por que eu falei do Flamengo ou por que eu contei toda essa história de como me apaixonei por uma garota? Bem, eu não sei ao certo. Estava lendo meus poemas (até agora, só pus uns cinco aqui, falta bem mais), e vi que ela me inspirava em vários... Aliás, quase todos eu fiz pensando nela. O curioso é que, embora a relação tivesse seu lado feliz, como o amor em si, eu sempre retrato ela como uma algoz, alguém de que tenho raiva e que fudeu minha vida. Aí eu penso se realmente tenho raiva dela. Como eu disse no primeiro parágrafo do texto, raiva é bem mais fraca que tristeza. Se eu tivesse somente raiva dela, poderia esquecer facilmente tudo de ruim que se passou... Mas e se eu tivesse tristeza? Aí, minha vida seria marcada profundamente por isso, e eu estaria acorrentado a um passado de alegrias e desgostos. O problema é que me sinto acorrentado desta maneira. O que eu sinto é tristeza, não raiva. Como eu quero esquecer tudo isso de uma vez, tento transformar, forçadamente, a tristeza em raiva. Então, sai um poema que expressa insultos contra a menina, mas esconde um poeta que não sabe lidar com a tristeza. Por meses, achei que, se eu pudesse voltar ao passado, deveria avisar a mim mesmo para não me meter com aquela menina. Entretanto, esses tempos, vi que, se eu pudesse voltar ao passado, deveria evitar a mim mesmo de avisar o outro eu para não me meter com aquela menina. Tudo o que sucedeu foi difícil para mim, mas teve seu lado bom. Aquela menina, mesmo que indiretamente, ensinou-me como amar, ensinou um garoto que, até então, via as mulheres de forma supérflua, e não como alguém com o qual você pode fundir seu coração e viver em função da felicidade de ambos. Ela me ensinou a ser menos idiota, pois, nos surtos de tristeza, aprendi a criticar o mundo, ver coisas que até então eram invisíveis, criar idéias e virar um poeta de araque (antes de araque do que porra nenhuma). Fico torcendo para eu arrumar outra garota que eu ame, fico torcendo para que ocorra da mesma maneira, que eu me apaixone com a mesma intensidade por outra garota, e que, dessa vez, dê certo e eu seja feliz. No entanto, embora eu torça, não nego que no momento atual eu ainda ame a menina que tanto significou (ou significa) para mim, talvez eu ame tanto quanto antigamente. Descobri que eu ainda me pego olhando para o rosto dela, na sala de aula. Descobri que ainda tenho uma luz de esperança que faça tudo dar certo. Descobri que ainda sonho com ela. Descobri ainda que, escrevendo esse texto, chorei da mesma maneira que eu chorava ao redigir textos na época do amor platônico. A tristeza é forte, mas não tanto quanto o amor... E creio que, mesmo eu arranjando outra pessoa que eu ame, talvez eu nunca esqueça o que a "menina do abraço" significou para mim.
Quem sabe um dia, como um drogado que abdica de sua droga para encarar seus sentimentos de frente, eu a retrate nos poemas como o que ela realmente é para mim... Não uma algoz, mas um anjo branco que me deu o poder do amor. Até lá, espero acabar com essa minha fraqueza de fugir da tristeza mergulhando em raiva.
Talvez esse texto tenha saído meloso, se eu estou chorando (e olha que não choro tão fácil) agora, ao terminar de redigí-lo, pode ser que meu lado sensível tenha vido à tona. De qualquer maneira, se você leu até aqui, obrigado pela paciência.


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