Geschichte: Versprechung und Dividende
- E então? Vai me arranjar ou não?
- Não sei, não sei... Que garantia eu vou ter?
- Deixa de ser mão-de-vaca, Fuá! Já disse que uma hora ou outra eu te devolvo!
- Mas... Pô... Pra que tu queres a arma?
- Tu sabes muito bem... O Barnabé vai me pagar!
- Num faz isso, rapaz... Jogar a vida fora...
- Jogar fora nada! Se liga, Fuá! Aqui ainda é pequeno, e se tenho chance de me acertar com o Barnabé, é agora! Vou aproveitar que o malandro ainda voa rasante.
- Eu sei, eu sei... Mas... Vou te dar minha arma, meu instrumento de trabalho, e nem sei se tu vais sair vivo, cara. Faz sentido?
- Faz, Fuá! E muito! Sabe por quê? Porque vou encher a cara do Barnabé de bala! E não tô mentindo!
- ... Vais me devolver, mesmo?
- Porra, já disse que vou! Sou honesto! Pra que a desconfiança?
- Honesto... Só sei que quando o assunto é dívida, todos os gatos são pardos... Mas tudo bem, me convenceu. Tá aqui, faz bom uso dela, só não esquece de me devolver.
- Tá certo, fica frio.
A arma ele já tinha, só faltava aprender a atirar com a mão esquerda. Que falta fazia o dedo indicador da mão direita... Que falta... Que raiva.
- Olha só, pessoal! Vou contar o dedo deste filho da puta pra ele aprender a não meter a mão no lucro da boca. Isso aqui é de todo mundo!
- Que porra é essa, Barnabé? Eu não peguei lucro de ninguém!
- E como é que tá faltando?
- Não sei, caralho! Só sei que não fui eu!
- Mas tu negas, hein, safado? E na maior cara-de-pau! Vou fazer isso por toda a galera que trabalha duro e foi roubada.
- Não faz isso, não, porra! Aaaaaaaaahhhhhhhhhhh...
- Hahahahahahahaha!!!
Os olhos dele estavam em chama, o calor das lágrimas descia pelo rosto. Aquelas eram lágrimas quentes de raiva. Realmente, lembrar daquilo não fez bem a ele. Se o desejo de vingança já era grande, a cada lembrança daquele momento o desejo era intensificado, mais ainda. Ele não podia morrer, pensava. Tinha a arma do Fuá pra devolver, e havia prometido tirar Maricléa daquele inferno. Ele nem sabia o que sentia por Maricléa... Era uma moça bonita, diferente do nome, tinha dezessete anos e sonhos um tanto incomuns... Pelo menos, naquele lugar. De qualquer maneira, promessa é dívida. Ele ia voltar pra buscar ela e devolver o ferro pro Fuá.
A festa havia acabado, eram nove da noite, relativamente cedo, para os costumes daquele lugar. Barnabé foi desacompanhado para casa. Quando a favela é pequena e os negócios ainda estão começando, os inimigos são poucos ou nenhum. Isto tranquilizava Barnabé, podia andar por ali desacompanhado, ele era bem quisto pelos moradores, pois adotava uma política assistencialista, enquanto líder e chefe dos negócios da favela. Abriu a porta de sua casa e adentrou bruscamente, não porque quis, mas porque um golpe violento lhe foi aplicado nas costas, fazendo-o cair de bruços no chão da casa.
- Mas que porra é essa?
- Barnabé, seu fudido! Quero ver tu rires sem teus dentes, quando eu espocar tua boca de bala!
- Eu devia era ter te matado, seu merda!
Cabiam seis tiros no revólver, e os seis foram desparados, acertando o alvo, Barnabé.
O barulho dos tiros acordou ou chamou a atenção de muita gente para a casa de Barnabé.
- Merda de lugarzinho pequeno! Nem tem como negar que veio daqui os tiros! Só vou encontrar a merda daquela sacola e ir embora.
Foi ao quarto de Barnabé, procurou em alguns lugares, e achou dentro do guarda-roupa.
- Filho de demônio! Aqui tá a grana... Roubou e me culpou por isso. Se eu perdi um dedo por causa dessa merda, é justo que isso tudo seja meu.
Contou rapidamente a grana da sacola. Com pressa, calculou que ali haviam uns trinta mil Reais. Uma boa quantia, digna de ser admirada, mas não naquele momento. Não ia demorar muito até que os moradores ou o pessoal da boca aparecesse ali, tinha que ir embora. Foi correndo, mas parou para chutar o cadáver de Barnabé.
- Safado! Teve o que merecia!
Com a agilidade de um maratonista e desespero de uma mulher em parto, desceu o morro da favela e chegou até a pista.
- TÁXI!!!
E no veículo entrou.
- Para a rodoviária, por favor.
Nem sabia o que estava fazendo, não ao certo. Pagaria uma passagem para um outro lugar, trabalharia lá, uma nova vida. Alugaria uma casa, compraria umas roupas, movéis... O que ele queria, a vingança, já conseguiu. Acomodou-se melhor no banco do táxi e começou a planejar. No meio de tantos pensamentos para o futuro, vieram alguns do passado. Não havia voltado para devolver o revólver pro Fuá... Nem pra buscar Maricléa.
- Ah, foda-se! - pensou
Perguntou ao motorista que horas eram, e foi informado de que eram dez da noite. O "dez" nem foi de muita importância, mas o "noite" foi. Lembrou que, à noite, todos os gatos são pardos. Também lembrou do que Fuá disse.
- Que comparação infeliz pra quem deixou a honestidade de lado... Motorista, será que dá pra ir um pouco mais rápido?
E o carro branco cortava o vento, em direção à rodoviária.


