sábado, dezembro 30, 2006

Geschichte: Versprechung und Dividende

- E então? Vai me arranjar ou não?
- Não sei, não sei... Que garantia eu vou ter?
- Deixa de ser mão-de-vaca, Fuá! Já disse que uma hora ou outra eu te devolvo!
- Mas... Pô... Pra que tu queres a arma?
- Tu sabes muito bem... O Barnabé vai me pagar!
- Num faz isso, rapaz... Jogar a vida fora...
- Jogar fora nada! Se liga, Fuá! Aqui ainda é pequeno, e se tenho chance de me acertar com o Barnabé, é agora! Vou aproveitar que o malandro ainda voa rasante.
- Eu sei, eu sei... Mas... Vou te dar minha arma, meu instrumento de trabalho, e nem sei se tu vais sair vivo, cara. Faz sentido?
- Faz, Fuá! E muito! Sabe por quê? Porque vou encher a cara do Barnabé de bala! E não tô mentindo!
- ... Vais me devolver, mesmo?
- Porra, já disse que vou! Sou honesto! Pra que a desconfiança?
- Honesto... Só sei que quando o assunto é dívida, todos os gatos são pardos... Mas tudo bem, me convenceu. Tá aqui, faz bom uso dela, só não esquece de me devolver.
- Tá certo, fica frio.

A arma ele já tinha, só faltava aprender a atirar com a mão esquerda. Que falta fazia o dedo indicador da mão direita... Que falta... Que raiva.

- Olha só, pessoal! Vou contar o dedo deste filho da puta pra ele aprender a não meter a mão no lucro da boca. Isso aqui é de todo mundo!
- Que porra é essa, Barnabé? Eu não peguei lucro de ninguém!
- E como é que tá faltando?
- Não sei, caralho! Só sei que não fui eu!
- Mas tu negas, hein, safado? E na maior cara-de-pau! Vou fazer isso por toda a galera que trabalha duro e foi roubada.
- Não faz isso, não, porra! Aaaaaaaaahhhhhhhhhhh...
- Hahahahahahahaha!!!

Os olhos dele estavam em chama, o calor das lágrimas descia pelo rosto. Aquelas eram lágrimas quentes de raiva. Realmente, lembrar daquilo não fez bem a ele. Se o desejo de vingança já era grande, a cada lembrança daquele momento o desejo era intensificado, mais ainda. Ele não podia morrer, pensava. Tinha a arma do Fuá pra devolver, e havia prometido tirar Maricléa daquele inferno. Ele nem sabia o que sentia por Maricléa... Era uma moça bonita, diferente do nome, tinha dezessete anos e sonhos um tanto incomuns... Pelo menos, naquele lugar. De qualquer maneira, promessa é dívida. Ele ia voltar pra buscar ela e devolver o ferro pro Fuá.

A festa havia acabado, eram nove da noite, relativamente cedo, para os costumes daquele lugar. Barnabé foi desacompanhado para casa. Quando a favela é pequena e os negócios ainda estão começando, os inimigos são poucos ou nenhum. Isto tranquilizava Barnabé, podia andar por ali desacompanhado, ele era bem quisto pelos moradores, pois adotava uma política assistencialista, enquanto líder e chefe dos negócios da favela. Abriu a porta de sua casa e adentrou bruscamente, não porque quis, mas porque um golpe violento lhe foi aplicado nas costas, fazendo-o cair de bruços no chão da casa.

- Mas que porra é essa?
- Barnabé, seu fudido! Quero ver tu rires sem teus dentes, quando eu espocar tua boca de bala!
- Eu devia era ter te matado, seu merda!

Cabiam seis tiros no revólver, e os seis foram desparados, acertando o alvo, Barnabé.

O barulho dos tiros acordou ou chamou a atenção de muita gente para a casa de Barnabé.

- Merda de lugarzinho pequeno! Nem tem como negar que veio daqui os tiros! Só vou encontrar a merda daquela sacola e ir embora.

Foi ao quarto de Barnabé, procurou em alguns lugares, e achou dentro do guarda-roupa.

- Filho de demônio! Aqui tá a grana... Roubou e me culpou por isso. Se eu perdi um dedo por causa dessa merda, é justo que isso tudo seja meu.

Contou rapidamente a grana da sacola. Com pressa, calculou que ali haviam uns trinta mil Reais. Uma boa quantia, digna de ser admirada, mas não naquele momento. Não ia demorar muito até que os moradores ou o pessoal da boca aparecesse ali, tinha que ir embora. Foi correndo, mas parou para chutar o cadáver de Barnabé.

- Safado! Teve o que merecia!

Com a agilidade de um maratonista e desespero de uma mulher em parto, desceu o morro da favela e chegou até a pista.

- TÁXI!!!

E no veículo entrou.

- Para a rodoviária, por favor.

Nem sabia o que estava fazendo, não ao certo. Pagaria uma passagem para um outro lugar, trabalharia lá, uma nova vida. Alugaria uma casa, compraria umas roupas, movéis... O que ele queria, a vingança, já conseguiu. Acomodou-se melhor no banco do táxi e começou a planejar. No meio de tantos pensamentos para o futuro, vieram alguns do passado. Não havia voltado para devolver o revólver pro Fuá... Nem pra buscar Maricléa.

- Ah, foda-se! - pensou

Perguntou ao motorista que horas eram, e foi informado de que eram dez da noite. O "dez" nem foi de muita importância, mas o "noite" foi. Lembrou que, à noite, todos os gatos são pardos. Também lembrou do que Fuá disse.

- Que comparação infeliz pra quem deixou a honestidade de lado... Motorista, será que dá pra ir um pouco mais rápido?

E o carro branco cortava o vento, em direção à rodoviária.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Geschichte: Die Dürre

Tião, apostando as últimas fichas, pede socorro ao santo:

- Meu São Jorge, as prantação dos ano passado foro tudo comida por praga e o sor mardito que queima feito inferno. Num vem água, santinho, num vem água. Eu queria pedi na mió humildade que voismecê jogasse um poco de água no meu quintal pra mór de nascê pelo menos uns pé-de-feijão ou arroiz pra eu alimentá as cria.
- Sinto muito, Tião. Eu apenas mato dragões.

O erro de Tião foi fatal, enganara-se de santo. Mais uma vez as pragas e o sol destruiram a plantação de Tião. Dessa vez, entretanto, sua família e ele mesmo foram juntos. Com as últimas energias que a fome ainda não havia roubado, ele faz consolo:

- Se pelo meno eu for pro inferno, já tô costumado co essa seca do diabo!

domingo, dezembro 24, 2006

Meine Weihnachtskarte

Hoje é natal. Na verdade, seria dia 25, mas o pessoal comemora hoje. Dia 25 seria uma espécie de "ressaca" do natal, quando fazem só um almoço entre familiares ou não fazem nada, mesmo.

Não gosto desta data. Sempre fico solitário. Passo uma parte do natal com meu pai, depois eu volto pra casa da minha mãe. A mãe fica muito absorta na festa, já que ela é quem organiza tudo, e não me dá muita atenção, mas gosta quando estou presente. O pai não faz festa, mas comemora com os familiares mais próximos. De qualquer maneira, no natal, as poucas vezes que não fico solitário é quando falo com o pai e a mãe, e não são muitas vezes. Sabe como é... Festa com gente estranha ou gente com a qual você não costuma falar. Dá nisso.

Eu tento ligar para os amigos, desejar feliz natal (pois sei que eles gostam), e conversar um pouco. Não dá. Uns estão na gandaia, outros nem atendem o telefone e os poucos que atendem, logo desligam. Foda que também raramente alguém telefona pra mim.

Assim resumindo, fico sem ter com quem conversar, com quem brincar, com quem me divertir, não tenho namorada, animal de estimação... Tenho uma flauta, e ela não me falha, mas o pessoal só se incomoda com ela (pode ser porque toco mal, mas creio que não é só pela minha habilidade... Não gostam de flauta, mesmo).

Tem gente que vai passar um natal bem pior. Tem gente que vai passar o natal na rua, com frio, fome... Talvez nem com os pais passe. Talvez o natal seja visto por uma velhinha que acabara de perder o marido, e lamentará solitária a perda do marido, enquanto os outros se divertem. Penso até nas crianças de um orfanato, que têm seu natal dependente da caridade dos outros, mas, mesmo assim, caridade alguma poderá trazer seus pais.

Natal é a comemoração do nascimento de Cristo, para os cristãos. Tem outros significados, para outras religiões. De qualquer maneira, poderia ser uma época para a gente desejar bem ao próximo, perdoar as ofensas e refletir sobre todas as besteiras que a gente fez, pra depois tentar melhorar. Poderia ser uma época para nós fortalecermos a árvore de amor. Poderia ser uma época sem presentes materiais, também. Nenhum presente que eu recebi (ou poderia receber) me daria gosto ao natal dos tempos modernos. Sei lá, quando o presente é de coração, até que é legal. Torna-se um símbolo, de amor, de amizade... E aquela coisa passa a ter um valor espiritual, que mesmo quebrada não perde a essência. Algo simples e legal. Pode ser até um balão com uma carinha desenhada ou um robô feito com caixinhas de papelão. Pode ser um símbolo comum a duas pessoas, algo que lembre um sentimento a essas duas pessoas, fazendo o objeto criar um vínculo de lembrança. Até que ia ser legal.

Mesmo assim, que isso não seja só para alguns, que seja para todos. Não adianta eu ficar feliz, se haverá gente triste, ainda. Às vezes, me dá algo assim. Emerjo do mar do egoísmo, talvez para pegar um pouco de ar, mas logo volto para lá, e esqueço meus ideais, minhas idéias... Às vezes, passo um bom tempo na superfície, ficando menos egoísta. Estou assim, ultimamente, mas não sei o quanto durará. Eu desisto fácil, isso é ruim. Até que tento dar conselhos às pessoas, conselhos básicos e eficientes, do tipo: "Ame mais! Cultive amor no coração!", mas nunca me ouvem. Quer dizer, ouvem, mas ignoram. Eu posso ter pouco amor no coração, o que não me dá moral para sugerir que alguém cultive esse sentimento, mas eu já reconheci a importância dele, e, por isso, posso afirmar que será muito melhor quando todas as pessoas tiverem amor no peito. Eu não estou lhe dizendo qual o melhor caminho para tomar porque eu já cheguei lá, quero é convidar as pessoas a trilharem o mesmo caminho, um caminho que faça bem a todos. Talvez eu seja o último a chegar lá, mas eu ficaria feliz em saber que eu consegui fazer algo útil na vida, ajudando uma pessoa.

Falando em "vida", enquanto eu digitava, percebi que aquela solidão... Não é só no natal. Não adianta culpar só o natal. Acontece por toda a minha vida, mesmo. Vou tentar dar um rumo melhor a ela, dar um pouco mais de chance às pessoas, deixar de ser tão misantropo, e ver se consigo falar mais com os amigos.

Vamos todos pensar em algo melhor para fazermos, neste natal. Vamos tentar amar mais, ser menos chatos e ser menos egoístas. Vamos ouvir e dar conselhos, também. Desejar o bem do próximo é boa idéia, também. Vamos associar a razão ao amor, e fazer um bom senso mais... bom. :)

Feliz festas!

 

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Geschichte: Der mann und das troll

Este conto vem direto do coração, e é totalmente sem-noção:


########## INÍCIO ##########

Era mais um ato heróico de Sven, o cavaleiro. Em busca de fama e poder, ele dirigia-se à floresta das valquírias, em busca da espada de abençoada por Týr, que, originalmente, havia sido dada ao melhor guerreiro que uma época já teve.

Na entrada da floresta, Sven encontra um troll gigante e pergunta a ele:

- Dar-me-ias passagem? Estás atrapalhando meu caminho!
- Não!

E o troll engole o homem.

########## FIM ##########


Conto meiguíssimo. Se leu até aqui, obrigado. :)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Geschichte: Die legende

Este post narrará um outro conto meu. Desta vez, o conto será extremamente desinteressante (ou não), mas também será pequeno. Desta forma, você conseguirá lê-lo e, assim, em um país onde o costume da leitura é fraco, seu número de contos lidos terá aumentado sem muito esforço, fazendo com que você esteja acima da média de leitura das outras pessoas, e isto te fará muito feliz. Vamos ao conto:


##########INÍCIO##########


Há muito tempo, ainda na Idade Média, rumores eram ditos sobre um homem extremamente impaciente e violento, que vivia ao pé da montanha Khällil. Certo dia, um rapaz cético resolveu ir averiguar tal lenda, e pôs-se a caminhar até à montanha em questão.

Quando chegou lá, o rapaz viu um homem forte, sujo, barbudo e cabeludo, sinais prováveis de que aquele indivíduo vivia isolado, sem preocupar-se com sua vaidade, sendo ele responsável pela própria sobrevivência, tendo ganho força após caçar constantemente os animais selvagens que por ali viviam. O tal homem polia com um pano encardido a sua brilhosa lança. Era estranho, pois quantas vezes a tal lança já não foi embebida em sangue selvagem? Quanta carne ela já não trespassou? Mesmo assim, brilhava. Naquele ambiente sórdido, a beleza da lança lembrava a realidade, um fraco brilho no meio de tanta escuridão, o pouco amor no meio de tanto ódio. O rapaz chegado finalmente perguntou:

- Então... Dizem que por aqui vive alguém impaciente e violento... Seria você?

E o pano continuava a limpar a lança.

- Responda! É você?

O tecido dança no metal.

- Maldito! Vai me ignorar? Não vai me responder?

Nada mudou.

O rapaz pegou uma das pedras que haviam por ali e golpeou diversas vezes a cabeça do homem sujo, até que este último estivesse agonizando, no rústico e áspero chão:

- Vieste aqui procurando uma lenda? Achaste a lenda em ti! Então, lenda serás, como lenda eu fui e lenda fiz alguém deixar de ser!

Ao ouvir as palavras finais de quem em breve morreria, o rapaz viu em si o que ele procurava.

O tempo passou, o rapaz não voltou. Ficava ali, naquele lugar inóspito, limpando uma lança que nunca parecia sujar-se. Gerações passaram, e a lenda nunca mudou. Contam que ele ainda está lá, limpando, polindo e esfregando... Até que uma nova lenda comece e sua maldição termine.


##########FIM##########


E, como sempre, se você leu até aqui, obrigado! :)

Aproveita e comenta, também.

sábado, dezembro 16, 2006

Einiges neigt von der Furcht-Industrie

Como amanhã será a minha prova do vestibular, e não só a minha, como a de vários, aqui na minha cidade, eu fiz essa tirinha para satirizar o desespero de alguns:








Tomara que eu consiga passar sem todo esse desespero. :)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Eine art von mich geschichte

Este post, depois de tanto tempo sem algum, é um conto ruim que eu criei sobre eu mesmo. Um conto reflexivo que ajudou a me compreender melhor. Se algo útil servir para vocês, neste conto, me avisem.


##########INÍCIO##########


Acordou às três da manhã, uma hora e meia antes do início de seu trabalho, mas não estava com sono. Sono, um sentimento de carência, carência de dormir, assim como sede é carência de água e fome é carência de comida. Caridade aos mais carentes, e sua maior carência era tanta que sua atenção não podia ser voltada às limitações da vida humana, como sono, sede e fome. Esse distanciamento da vida humana acabou transformando-o em alguém apto para o trabalho que exercia. Era uma espécie de mafioso, e eu escrevi mafioso, não aqueles bandidos que vangloriavam-se de seus vocabulários chulos e atitudes pervertidas. José, esse era o nome dele. José era o mafioso, que vestia-se em trajes finos, possuía linguajar moderado (embora não tão complexo ou erudito) e bons modos. Sentado na beira da cama, refletiu sobre sua vida medíocre e o pequeno período de tempo em que ela foi gloriosa. Era um fato sabido por ele apenas, essa mediocridade. Os seus inimigos, e até os amigos, achavam que era apenas um assassino de sangue frio, que matava pelo dinheiro, que só fazia ofício sua insensibilidade e misantropia; logo, era alguém poderoso, decidia quem viveria, quem morreria... Tinha um poder nas mãos.

Tomou um banho e foi até o local de trabalho, local escondido, mas não tão secreto. De qualquer maneira, quem ali ousaria entrar, senão os próprios trabalhadores e convidados?

- Somente mais um político? Está contra nós? Teria ele alguma honestidade imbutida?
- Não tenha falsas esperanças com os políticos, José. Este que lhe falo está contra nós porque vamos contra os interesses dele. Não há ética ou honra, só há conflito de interesses.
- Entendo... Mas por que ele te desafiou?
- Ele não me conhece... Poucos nos conhecem. Somos fortes, José! Lembre-se disso! Nosso anonimato nos lembra Deus, ninguém nos vê, mas decidimos quem vive ou morre. Minha decisão foi tomada, e o político morrerá.
- Qual o grau de dificuldade da missão?
- Desde quando temos escala de dificuldade?
- ...
- Tudo bem. Se for o seu desejo, em uma escala de 0 a 10, eu classificaria como dificuldade 9.
- Para um político?
- Ele é dos bons... Poderia até ser um de nós, se não fosse tão imprudente.
- ...
- Você está estranho, hoje... Não que seja inédito, mas noto uma progressão deste sentimento em você. Desde que o contratei, saberia que você potencializaria o poder desta organização, saberia que sua energia destruiria as barreiras que impediriam nosso triunfo, mas até das maiores pilhas um dia foge a energia... Seria isso?
- Talvez. - diz friamente, enquanto vira-se para ir embora - Já tenho tudo de que preciso, apenas posso garantir que matarei o nosso alvo, e nada mais.
- Espere! Há quatro homens para te auxiliar.
- Não preciso deles!
- Se assim for sua vontade...

Políticos, seres que deixaram o egoísmo e ganância tomarem conta de seus corações, mas não têm vergonha de admitir. Apenas disfarçam o fato para que os falsos moralistas, convencidos de que são diferentes, e estes formam o restante da sociedade, não os deponham do poder. Há um político dentro de cada um de nós, somos imperfeitos, mas só eles admitem... Infelizmente, é por terem orgulho de como são, de terem obtido sucesso material por enganarem os outros. De qualquer maneira, não os culpo. Ladrão que rouba de ladrão, tem cem anos de perdão. Apenas matarei todos, a fim de purificar o mundo. Esta é a minha missão.

Eu estava empunhando uma pistola, totalmente carregada, e há poucas dezenas de metros do político. Onde será que aprendi a fazer isto? Por que resolvi fazer isto? Certifico-me de que, depois de matá-lo, terei como lidar com seus seguranças, e revejo se a metralhadora está em ordem. Ela está. Eles fecham-se em castelos, protegidos por uma tecnologia que custou uma organização social que levou à miséria de muitos. Hoje, alguém alienado por esse êxtase tecnológico terá a vida ceifada graças à falha de um objeto desse cunho... E eu serei o ceifador.

Com que moral ajo assim? Não me lembro de ter nascido puro, ninguém nasceu, e não precisa ser puro para pregar a pureza... Mas... Eu? Considerando a intensidade de pureza que prego, eu deveria ser uma pessoa bem melhor do que eu realmente sou. Estou melhor, agora, mas longe do suficiente. Eu era bem pior antes... Eu era... Um deles. Prego o amor, mas puno com o ódio. Faz sentido? Estaria eu destruindo tudo por preferir um mundo sem vida a um mundo com ódio, ou estaria eu destruindo tudo porque o mundo não é simplesmente como eu quero? Talvez os dois, mas não nego que sou uma criança com um jogo de armar, moldando tudo como eu bem entendo.

A mão treme... Pensei nela, eu sabia! Toda vez que chego a refletir, eu lembro dela. Ela foi um anjo que me fez mudar, para melhor, para pior... Fez-me diferente. Eu, pelo menos, já era diferente deles. Aprendi a amar, sem querer ela me ensinou. Minha história com ela não foi das mais felizes, era uma história triste, ela me fez sofrer, a incompreensão para com meu amor, o destrato a mim ofertado, o desprezo... Sim, pela lógica, ela é como os outros. Depois disto, irei atrás dela. O processo de purificação não pode parar, e, ela querendo ou não, deverá abrir mão de sua vida para que o mesmo seja completado.

Eu conseguiria mesmo? Quero dizer, já tirei a vida de centenas de seres podres, sorri o prazer de matá-los, inclusive quando eu apenas planejava em como eu os mataria. Por que com ela não? Ela era tão podre quanto eles, não era? Não foi a essa conclusão que eu cheguei? A lógica vai me trair? Ou será que desassociar o amor da lógica faz com que você chegue em um raciocínio equivocado? Eu... Não consigo lembrar dela sem passar pelos momentos de felicidade extrema que só com ela eu tive, não consigo lembrar dela sem lembrar de mim mesmo, antes dela, alguém como eles, impuro totalmente, sem saber amar... Minhas reflexões, meus raciocínios, minha lucidez e minhas loucuras foi tudo fruto dela. Foi quando deixei de ser uma máquina do sistema e me tornei mais humano. Eu não conseguiria matá-la, pois estaria destruindo a semente que me deu nova vida, a vida nova que é o amor, e o amor que vence o ódio, o amor que tudo cura, o amor que destrói as mazelas da vida... Se eu recebi o dom do amor, por que o deixei morrer? É por isso que vago tentando fazer os outros deixarem os seus corações amarem? É para redimir o fato de eu ter desperdiçado o meu dom? Eu devia... Tê-lo usado melhor...

Eu já estava louco, fiquei mais. Todos aqueles pensamentos de uma vez, lembrar dela, o que ela me fez, o que fiz a ela, nossos erros, nossos acertos... Minhas falhas.

A escuridão já se dissipava no céu, que pouco a pouco tornava-se menos negro, assim como o brilho do sol logo cortaria o céu, um brilho antecedente também havia cortado-o. Era um bilho rápido, do metal que corria com o fogo, aquele calor era o mesmo do ódio triste daquele que fez a bala disparar. Disparada e corrida com o fogo, ela impregnou-se de sangue, dentro da cabeça do político. O alvo havia sido eliminado.

Instaurou-se o caos, após tudo isso. Seguranças detectaram de onde veio o tiro, e revidaram da mesma forma. Mais de cinqüenta balas voaram naquela direção, mas o homem que dali saiu só possuía dois ferimentos, ambos superficiais. A metralhadora que ele empunhava urrou da única forma que podia, de forma destrutiva, assassina, disparando um metal que atravessava a carne dos que eram atingidos. Era uma arma dos homens covardes, sem glória, que trocaram as lanças e espadas, que ainda de força física dos homens usavam, consagrando grandes guerreiros. Agora, até mesmo uma criança poderia enfrentar o mais forte dos guerreiros antigos, graças às armas covardes. E a arma covarde ofegava, com fumaça saindo pelo cano. Tudo havia terminado, e o sol banhava José, o único ali de pé, assim como havia banhado os guerreiros mitológicos que o mafioso tanto admirava, mas eles eram melhores, lutavam nem que fosse com as mãos nuas, contra os mais impiedosos e poderosos monstros. José ainda lamentou a pífia guerra dos tempos modernos, covarde e insensível, sem honra. Até mesmo sua recente batalha contra os seguranças de um político foi assim. A arma covarde de José contra as armas covardes deles. Ganhou um covarde, que não lutava com sua própria força, que não lutava com honra, que não lutava por alguém que ele amava... Não, ele não estava fazendo isso por ela.

É... Parece que isso tudo foi em vão. Não dá para mudar o mundo assim. Será que ainda tenho munição? Hum... Duas balas... Creio que é o suficiente.

Ali estava eu, deitado. Senti meu corpo dividindo-se em dois. No corpo mundano, eu sentia apenas o chão frio, e nada mais. No corpo novo, ou talvez o corpo que morava dentro do meu antigo, e talvez fosse meu corpo verdadeiro, eu sentia mãos me puxarem para baixo. Então, é assim? Eu, como mártir, ensinei-os sobre as bondades e maldades da vida, eu os ajudei, e não mereço o Céu?

Fiz uma pergunta, mas eu já sabia a resposta. Tudo o que eu ensinei era certo, mas aquela era a minha punição por ter ensinado com o ódio, e não com o amor. Eu havia de me conformar... E me purificar.

No momento, eu vou, mas voltarei. Voltarei melhor, para você, para corrigir os erros antigos, para te proteger e te amar, como nos velhos tempos felizes.


##########FIM##########


Se você leu até aqui, obrigado. :)