terça-feira, janeiro 30, 2007

Geschichte: Der Bettler

- Um pão, um pão! Por favor!
- Vai te fuder, vagabundo! Tô atrasado!

Era comum, na vida de Moisés. Era mendigo, mas um tanto diferente dos outros. Tinha um pouco de instrução, estudou até o segundo grau, sabia ler e escrever. Já teve um emprego, mas o demitiram. Nem foi culpa dele. Corte de custos, mandam embora vários. Acontece. Moisés tinha perdido os pais para a morte, e a sua própria vida para o sistema, o capitalismo. Às vezes, era paciente, aturava o que os outros lhe faziam. Mas nem sempre. Haviam dias em que Moisés revidava. Xingavam ele, e o mendigo xingava de volta. Isso quando ele não resolvia bater no desafeto. Por causa disso, já era manjado pelos policiais.

- É o Moisés, o vagabundo. Em vez de trabalhar, enche o saco. Vez ou outra bate em alguém. Ninguém vai ficar prendendo ele pra sempre, não. Qualquer dia, a gente desova o cadáver dele por aí.

Moisés sabia que os policiais eram sujos, que queriam pegá-lo. Sabia que eles só garantiam a paz dos individualistas, dos que foram absortos pelo sistema, as engrenagens mais importantes da máquina. Se pudesse, matava todos os policiais. Matava todos os capitalistas, também. Forte ele era, mas não tinha a força estava fraca. Não comia há doze dias.

- De fome eu não morro! Faço besteira, mas de fome eu não morro!

Entrou em uma padaria, portanto uma garrafa de pinga partida irregularmente ao meio, o que deixava nela vários dentes afiados, e segurava pelo gargalo. Entrou gritando, uma espécie de grito de guerra, só para assustar o pessoal. Sairam de lá correndo o padeiro, o ajudante do padeiro, o caixa e mais quatro clientes que ali estavam.

- Fujam, fujam! Burgueses malditos!

Padaria vazia, pulou para trás do balcão e fartou-se em pães, salgados, doces, bolos. Comia rapidamente, de velocidade que só a fome proporciona. Nem ligou pros gritos.

- Ali! É aquele mendigo ali! Ele tá armado! Tá destruindo minha padaria!

E entra um homem fardado, na padaria.

- Porra, Moisés! Acabou minha paciência contigo!

E deu com o cacetete, na nuca do mendigo.

Semi-consciente, ainda pôde perceber que o policial pegou o revólver, mas notou a hesitação no rosto dele.

- Ele tá ponderando se me mata ou não... Quer se ver livre de mim, mas tem medo de complicar pra ele. Eu também quero me ver livre dessa vida de merda. Vou incentivar. - pensou Moisés, consigo mesmo.

E o maltrapido disse com as poucas energias que lhe restavam:

- Tá com medo, homem? Atira que tu és do cão. Tás cheio de morte nas costas, não pára agora. Tu já tás com a passagem pro inferno, faz o que quiseres daqui. Atira! Atira agora! Atira enquanto eu tô de barriga cheia, que de fome eu não morro.

Raivoso, o policial atirou. Moisés morreu na hora. Morreu diferente de vários mendigos. Morreu desafiando, peitando o sistema que o arruinou, e morreu de barriga cheia. Tem mendigo que nem urubu chama, por nem carne ter. Moisés chamou. Corpo desovado em perto da ponte, sem nenhum velório. A não ser o típico rodear dos urubus, que rodavam o céu como uma última homenagem ao mendigo. Depois, a cadeia alimentar funciona, e a carne podre é comida. Moisés, agora, procura um outro lugar pra viver. Um outro mundo, um lugar melhor.
 

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Geschichte: Eine Hand wäscht andere

Os náufragos Juca e João, na ilha deserta, cada qual com seus pertences, discutiam:

- Você precisa de mim mais do que eu de você!
- É mesmo? E quem tem os cigarros?
- Você. Mas quem tem o fogo?
- E você vai fumar fogo?
- E você vai fumar cigarro apagado?
- Quer saber? Vai embora, vai!
- Tô indo. Vou pra um canto, você vai pro outro. Nunca mais vamos nos falar.
- Não me importa.

Os anos passaram, os cigarros e os fósforos apodreceram. Ninguém jamais voltou a fumar. Uma briga saudável, literalmente.
 

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Geschichte: Nomadischer Ausfall

No oitavo andar da construção, os trabalhadores não poupavam esforços nas suas tarefas. Vendo de longe, de um lugar que proporcionasse uma vista panorâmica, tinha-se a impressão de que eram máquinas. Não sei se pela habilidade com as tarefas, mas, na minha opinião, pareciam máquinas por possuirem sempre a mesma expressão facial, por nada falarem. O relógio marcava duas da tarde, nesta hora o calor é intenso. Será que nenhum deles seria capaz de pronunciar um "que calor miserável"? Será que ninguém reclamaria de dor nos braços, dor nas costas? Só quem resiste assim é uma máquina. Ah, espere um pouco. Parece que tem alguém mais humano, lá.

- Que calor miseráver! E essa dor nas costa que num me dexa em paz!

Alguém havia prolongado um pouco mais a folga do horário do almoço. Era um belo contraste. Enquanto todos trabalhavam roboticamente, havia alguém sentado, reclamando sozinho o que todos ali sentiam.

- Ô, você aí, vagabundo!

Parece que chamaram o preguiçoso.

- Por que não está trabalhando, como os outros?
- É que tô cansado...
- Cansado? Escute aqui, seu peão de merda, a gente está te pagando, e é pra você trabalhar, senão vai parar no olho da rua! Entendeu?

Depois de ouvir a bronca, ele levantou. Pôs-se em frente ao bronqueador.

- Escute aqui ocê! Eu num sô fio de desonrada pra ouvi essas coisa de home da cidade feito ocê! Fale assim comigo de novo e ocê vai levá uma surra que num vai mais esquecê!

O engenheiro sentiu o sangue gelar. Ah, sim, esqueci de contar. O "home da cidade", o ameaçado de surra, era o engenheiro que supervisionava os trabalhadores. De qualquer maneira, sentiu o medo. Enquanto protegido pelo sistema de leis, ele era corajoso. Podia demitir os inferiores, podia gritar, humilhar eles. No entanto, quando algum trabalhador esquece o sistema que o rege, e passa a resolver as coisas na velha lei do mais forte, o engenheiro percebia que o seu corpo franzino não era páreo para sobreviver a essa lei.

- Por favor, não precisa ficar brabo. Só estou lhe dizendo para continuar o trabalho.

O trabalhador sorriu. Sabia que havia imposto autoridade naquele homem arrogante. Mesmo assim, não gostou de ter levado bronca. Seu nome era Nicolau, vindo de um interior do país. Onde nasceu, sempre foi rodeado de pessoas que davam valor à honra pessoal, e assim ele cresceu. Acabou ficando muito orgulhoso, também. Podia até ter tirado o prego da tábua, ao intimidar o engenheiro, mas que a marca do prego havia ficado, sim, ela havia.

- Num precisa. Eu num quero mais esse emprego. Ocê se acha miór que os otro pruque sabe levantá prédio? Ora, eu faço muito miór que isso. Ocê vai vê, num precisa nem esperá sentado que saindo daqui eu vô já começá a trabaiá!

E Nicolau foi descendo a construção, foi rumando pra casa. Chegando lá, nem falou com a esposa e com os filhos, foi direto para o quarto. Pegou um dinheiro que havia guardado em uma caixinha.

- Vai sê difícir, mas preciso do dinheiro da branquinha. É por uma boa causa.

A mulher viu a cena.

- Vai bebê, home?
- Vô nada. Vô mostrá pr'esses troxa da cidade cumé que se faz um prédio.
- Tá maluco, home? Cumé que ocê vai fazê um prédio com esse dinherinho?
- Ara! Vá aporrinhá otro, muié! Dexe que sei muito bem o que faço!

Ele saiu do quarto e saiu de casa. A mulher não ficou impressionada. Ela sabia que era questão de honra. Se havia algo que podia fazer Nicolau deixar de lado o seu vício de bebidas alcoólicas, com certeza era questão de honra. Embora soubesse que a maioria das "questões honrosas" do marido eram bobas e tolas, ela gostava desse sentimento dele. Não por realmente admirar o sentimento, mas porque, pelo menos enquanto durasse, Nicolau não bebia, e tudo era melhor. Ela lembrou até do motivo pelo qual vieram à cidade. As bebidas do marido. Tinham vida estável, no campo, mas ele bebeu demais, esqueceu de trabalhar, as dívidas acumulando... "Miór nem lembrá mais", pensou a mulher.

O caipira estava agora na lojinha de materiais de construção. Comprou um milheiro de tijolos e, com muita lábia, convenceu o dono do estabelecimento a ajudar com o transporte deles, levando-os numa pequena caminhonete. Após descarregar os tijolos no quintal de sua casa, Nicolau despediu-se do homem e começou a sua obra. Sem nem sequer usar cimento, começou a empilhar os tijolos, um a um. Começou a chover. A mulher grita:

- Vem pra cá, home! Num fique aí se molhando!

Nicolau corre pra dentro de casa e espera a chuva passar. A chuva engrossa, os ventos tornam-se mais intensos, mais rápidos. Não demora muito e... Lá vem o barulho. Trovão? Fraco demais pra ser um. O que era? Ah, eram os tijolos. A obra de Nicolau havia desmoronado.

- Tá vendo? Eu num disse que ia sucedê errado?
- Mas foi por causa da chuva. Se não, ia ficá maió do que o prédio daquele engenhero besta.
- Ai, Nicolau... Quando ocê vai aprendê, hein? Pelo meno, vê se amanhã ocê sai cedo e vai procurá um emprego. Nós num pode vivê sem dinhero, home.
- Tá, tá... Amanhã eu vejo isso.

No dia seguinte, Nicolau vai em outra construção, arrumar emprego. Tirou uma sorte grande: O emprego novo pagava o dobro, e ainda era mais fácil. E Nicolau estava empregado, novamente.

Naquele mês, tudo correu bem. Até Nicolau receber, o dinheiro do salário anterior daria para pagar as coisas. Sem o dinheiro da cachaça, o caipira manteve a sobriedade. Foi melhor. Parou de brigar com a esposa, tratava melhor os filhos, trabalhava melhor.

No início do mês seguinte, Nicolau recebeu o salário. Era o dobro do anterior, não estava acostumado com todo esse dinheiro. Ficou extasiado. Foi beber. Bebeu, bebeu, bebeu... Varou a madrugada, nem apareceu em casa. Raiou o dia, foi direto pro trabalho. Chegou embriagado, discutiu com o patrão, foi demitido. Já passando o efeito do álcool, voltou pra casa com a idéia.

- Muié, vamo voltá pro campo. Só tem troxa nessa cidade.

De novo?! Quem vai pôr na cabeça do Nicolau que não adianta mudar de lugar, se levar a impenitência junto?
 

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Geschichte: Unterschiedlich sein

Ninguém sabe como Maurício surgiu ali, naquela época. Se não houvessem as típicas testemunhas, que datam em documento a hora, dia, mês e ano de nascença da pessoa, qualquer um poderia ter as mais loucas teorias sobre o rapaz, como dizer que ele foi trazido por uma máquina do tempo, ou que fora congelado durante anos, para voltar à vida neste período. Era o ano de dois mil e sete, pelo menos no calendário que os brasileiros em geral usam. Maurício sabia disso, mas seus gostos e estilo faziam muita referência aos anos da década de mil novecentos e sessenta. Tinha lá seus amigos, não muitos. Temiam Maurício. Temem terroristas, assaltantes e qualquer um que lhes possam tirar a vida. No entanto, Maurício era temido por ser diferente. Nem tão diferente. Em certa época, houveram milhares como ele. Agora, era diferente.

- Doido varrido, esse Maurício. Quanto mais distância, melhor.
- Sujeito ultrapassado. Apegado ao passado. Com certeza, não é boa pessoa.

Os jovens "atualizados" tinham seus carros, as mais diversas marcas: Honda Civic, Corolla, Ford Ecosport, etc. Maurício tinha o dele: Um velho calhambeque.

Carolina era uma garota muita bonita. Cursava faculdade, algum desses cursos. Jovem, bonita, cobiçada. Cobiçada por muitos homens, cujas cobiças assemelhavam-se às cobiças dos cães sem donos, que adentravam os açougues e fitavam os generosos pedaços de carnes, enquanto estivessem com fome. Se alimentados, não dirigiam olhar à carne, até que a fome viesse, novamente. Era aquele sentimento de necessidade temporária, não era amor à carne, era a curta realização de uma vontade. Carolina sabia disso, não ficou bonita da noite para o dia. Já há algum tempo, a garota vinha entediando-se. Estava cansada dos mesmos homens, da falta de caráter e da submissão de valores deles. Ponderava se era sábio ser assim, resistente, se o melhor a ser feito não era cair na boca daqueles cães. Talvez ela fosse só um pedaço de carne, mesmo. De qualquer maneira, preferiu conservar-se intacta. Não daria de comer àqueles cães. Poderiam latir até a exaustão total. Não teria efeito.

Houve uma festa, por aí, em algum lugar da cidade. Honda Civic, Corolla, Ford Ecosport... Todos estavam lá, acompanhados de seus donos. Carolina também estava lá, recebendo xavecos de quase todos aqueles rapazes.

- E aí, gostosa! Entra no meu carro e vamos dar um rolé!

Carolina ignorava, tentava esconder a raiva. O porta-malas de quase todos os carros estava aberto, com possantes caixas-de-som gritando os ruídos que os jovens chamavam de música. Música estranha, por sinal. Totalmente feita por um computador, sem o mísero toque de um instrumento musical. Diziam ser coisa do passado, esses instrumentos. O computador reunia todos em si, além de transformar o som deles.

Carolina nem sabia por que estava ali. Tinha ido para se divertir, mas naquele ambiente era impossível. Os xavecos eram incessantes. Cada jovem encostado em um carro fazia a sua proposta indecente. Saindo daquele lugar, passando pelos últimos carros, e pelos últimos xavecos, Carolina reparou que houve um único jovem quem não dirigiu uma palavra a ela. Vestia camiseta branca, jaqueta preta de couro, por cima, calça jeans. Mãos no bolso da jaqueta e encostado em um calhambeque. Seu nome era Maurício.

A garota aproximou-se do rapaz. Era diferente, atrativo. Começaram a conversar. Maurício tinha o seu jeitão peculiar, mas mostrou uma boa conversa. Falava de coisas além do consumismo, da alienação. Carolina sentiu-se bastante à vontade. Conversa vai, conversa vem, e quem tava de fora começou a reparar. Logo Maurício, o estranho, recebendo a atenção negada a todos os bonitões daquele lugar? Não demorou muito e o casal entrou no calhambeque. O motor foi ligado, o toca-fitas também. Tocava não tão alto "Eu Sou Terrível", do Roberto Carlos. E o calhambeque ia abrindo caminho, naquela multidão de jovens sólitos.
 

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Geschichte: Ein Weg

José morava só e não tinha muito o que fazer. O emprego pagava mal, mas também não explorava. Quatro horas diárias, cinco dias por semana, e até que o salário dava pra pagar as contas. Também, ele não gastava muito. Pensava que, se fosse rico, a única coisa que ele teria a mais era o próprio dinheiro. Todas as coisas materiais que queria podia comprar com o seu modesto salário. Viver de forma relativamente humilde parecia ser a prevenção contra o estresse, que tanto via nas outras pessoas. Observava pessoas como passatempo, ou como forma de passar o tédio. O relógio mostrava o meio da tarde, três horas. Já havia voltado do emprego e estava sentado, no sofá de sua casa. Decidiu passear. Dia nublado, pegou o guarda-chuva e saiu. Foi à padaria. Pediu uma xícara de café e sentou-se em uma das mesas. Logo depois, o café chegou. Bebia aos poucos e olhava as pessoas, dentro e fora da padaria. Nenhuma delas lhe chamava mais ou menos atenção. Todas, ali, eram iguais. A rotina, a aceitação, o individualismo. Ele já havia tentado mudar aquilo, aconselhou uns e outros, mas ninguém deu importância. Depois de pensar um pouco, percebeu que, ao desistir, também tornou-se individualista. Era uma forma diferente de ser, mas realmente havia tornado-se um. Ele não queria dar importância só a si mesmo, mas não encontrava ninguém a que pudesse destinar um carinho, uma afeição. Percebeu que por mais que estejamos no caminho certo, ou o que consideramos certo, devemos sempre estar atentos para nunca mudar de direção. Caiu a chuva. Ele abriu o guarda-chuva e seguiu o caminho de casa. Viu um mendigo. Resolveu, temporariamente, mudar o caminho do trajeto e da vida, voltou para a padaria. Comprou um sanduíche de queijo, voltou e entregou ao mendigo. José não sabia por que fez isso, e sabia que o mundo não mudaria com isso, mas sabia que todos gostam de receber ajuda, nem que seja uma pequena, uma insignificante. O mendigo agradeceu, e, naquele momento, pelo menos naquele momento, José sentiu que foi bom estar ali. Voltou pra casa, e ficou passando, junto com o tempo. Sentado, vivia a vida individualista de sempre. Sem ganância, sem vaidade, sem avareza, mas, ainda, individualista.
 

domingo, janeiro 21, 2007

Der freie Getränkplan

Este post é direcionado a um certo grupo de pessoas. Se você não fizer parte dele, não entenderá nada deste post, e poderá ignorá-lo.

- Bora beber, porra! Tô ficando sem paciência!
- Se acalme. O plano deve ir conforme o combinado.
- O Helder demora pra caralho, já devia estar na hora!
- Já disse, Artur. Tem que ter paciência.

Artur e Roberto planejaram há tempos tudo aquilo, não podia sair errado. Lucas foi dar as notícias aos dois.

- O Helder disse que já criou o tópico. Vamos pôr o plano em ação. Avisem o João Gabriel.

Artur faz a ligação.

- João, entra como anônimo e xinga ele. Tá na hora.
- E como eu faço?
- É só ser chulo. Quanto mais, melhor. Depois, é só esperar o resultado.

João pensou um pouco em como fazer o xingamento. Demorou uns quinze minutos, mas logo decidiu. Ligou o computador, entrou no Orkut e publicou as ofensas.

No dia seguinte, todos os que leram os xingamentos pensaram: "Meu Deus! Há agressividade em nossa comunidade! Ela pode se espalhar! Vai ser o fim da amizade de todos!"

O reino de terror estava instaurado, foi quando surgiu o "Messias", Artur Tadaeisky.

- Irmãos, briga não leva a lugar algum. Vamos beber!

Roberto completou:

- A bebida é a cura para os males do homem.

João Gabriel fez a sua parte:

- Precisamos de uma festa com bastante bebidas alcoólicas, para purificarmos nossa alma.

Lucas deu o golpe de misericórdia:

- Sugiro que os membros da comunidade organizem a festa, paguem muitas bebidas alcoólicas e vamos todos beber.

Na semana seguinte, os outros membros da comunidade fizeram uma coleta e organizaram uma grande fuzarca, onde Artur, Roberto, João e Lucas abriam as bocas ao álcool. Enquanto os ludibriados consideravam isso como um ato de purificação, o quarteto de jovens brindava o sucesso do plano.

Nunca se sabe porque Helder aceitou fazer parte disso tudo. Reza a lenda que ele possuia um plano para degradação intelectual das pessoas utilizando-se de bebidas alcoólicas, a fim de transformá-los em soldados zumbis que atacariam o Japão, como forma de vingança ao país que traiu sua querida Tomé-Açu, mas isso é uma outra história...

No final da festa, Artur pergunta a Roberto:

- Lembra daquele tal de Zé, que descobriu nosso plano por acaso?
- Lembro.
- Então... Ele pediu uma quantia pra vender o silêncio dele... E não pagamos.
- Ele estava blefando. Ele jamais contaria o nosso plano. Ele não sabe dos detalhes.
- É mesmo. Podemos ficar sossegados. Os outros jamais descobrirão.
 

sábado, janeiro 20, 2007

Die Kaiser der hirnlosen Junge eine

- E então, Chorão?
- Marcelo, não sei... E minha reputação, véi?
- Chorão, teus fãs são fiéis. Pode ficar tranquilo. É garantido que não vai destruir tua reputação. Mancha por um mês ou dois, mas depois o pessoal vai perder a raiva de ti.
- E se não perder, cara? E se não perder?
- Tá certo, vamos fazer o seguinte: Eu pago o dobro. E então?
- Pô...
- Pensa bem!

Chorão pensou nas dívidas, na dificuldade de arrumar grana com a falta de shows. Acabou por tomar uma decisão.

- Tá certo. Eu faço.
- Ótimo. Vai ser assim: A gente finge que brigou no avião. Depois, quando desembarcarmos, eu vou pra perto dos repórteres e você vai atrás de mim pra me bater. Combinado?
- Tudo bem, tudo bem.

No dia seguinte, os jornais anunciam: "Vocalista da banda Los Hermanos é agredido por vocalista da banda Charlie Brown Jr. O motivo da agressão foi porque o primeiro falou algumas verdades sobre o segundo".

Parecia insensato. Ambos perderam? Marcelo apanhou e Chorou manchou reputação? Ou ambos ganharam? Marcelo foi idolatrado como mártir da liberdade de expressão por jovens acéfalos da triste classe média, enquanto Chorão, além da grana ganha, firmou sua fama de malvado e páreo duro.

Marcelo Camelo é um gênio, e ergue seu império aproveitando-se da falta de inteligência da classe média, que procura a pseudo-intelectualidade. Chorão não fica atrás, e ergue seu império aproveitando-se da vontade de auto-afirmação dos jovens, que precisam de um modelo para se inspirarem.

Ruins na música, bons em alienação.
 

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Geschichte: Einziehen der Versuchungen

Maciel foi visitar Alfredo, seu velho amigo de infância. Tinham muitas coisas em comum, mas, das em que divergiam, a mais notável era a religião. Enquanto Maciel era católico fervoroso, Alfredo era ateu. Embora o religioso se sentisse desconfortável com a escolha do amigo, esse fato nunca atrapalhou a amizade entre os dois.

- Bom dia, Alfredo. Como tem passado?
- Muito bem, Maciel. Obrigado. Estou almoçando, agora. Não quer se juntar a mim?
- Vim só te ver, Alfredo. Não quero incomodar.
- Deixa disso, homem! Você nunca incomoda. Vem! Vamos pra mesa!

Maciel, depois da relutância, acabou por aceitar o convite do amigo. Chegou à mesa e viu vários pedaços suculentos de filé.

- Vamos, Maciel! Pode se servir à vontade!

Maciel estava receioso, o que instigava Alfredo.

- O que foi? Algum problema?
- É que... Hoje é sexta-feira santa, Alfredo.
- Ah, sim, sim... Esqueci que sua religião não permite comer carne, nesse dia.
- É... Que pena.

Que pena, mesmo. Alfredo tinha fama de melhor cozinheiro da região, e o seu filé tinha um gabarito impecável.

- Mas não tem problema, não, Alfredo. É só eu não comer filé.

E os dois sentaram-se à mesa. Encheram os pratos e ora comiam, ora conversavam. Maciel estava meio desconcentrado. Sua mente pensava em outra coisa. Para ser mais exato, pensava no filé. Bem passadinho, com aquele molho... Uma tentação.

- É isso! Tentação! Só pode ser o diabo atentando! Xô, tinhoso! - pensou Maciel.

Mais garfadas e palavras foram desferidas, naquele almoço, e conforme o tempo passava, mais Maciel voltava a atenção para o filé.

Quando os dois terminaram de comer, Alfredo notou que ainda havia uma boa quantidade de filé, ainda.

- Bem, acho que vou guardar pro jantar.
- NÃO! NÃO VAI! - gritou Maciel.
- Calma, homem! Por que isso?
- Porque... Esse filé... É MEU!

Maciel, como um integrante da vara de porcos possuída pelo capeta, avançou no prato do filé. Devorou todos os pedaços de carne, insanamente, vorazmente, usando as próprias mãos e dentes, voltando aos costumes antigos dos homens, quando nem religião havia, ainda. E se não havia religião, não havia o religioso. Assim, Maciel fez. Deixou o catolicismo de lado. Virou ateu, como o seu amigo Alfredo.

Até hoje, reza a lenda de que nem o próprio diabo faz um filé tão tentador quanto aquele.
 

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Geschichte: Zwei Ränder

Marcela era homossexual, mas nunca teve coragem de admitir. Sofria muito com isso, tinha medo de pegar a fama de "sapatão" e receber escárnio diariamente. Entretanto, o que mais a incomodava era Camila. Com quinze anos, Marcela apaixonou-se por Camila. Agora, estava com dezessete, e continuava apaixonada. Elas nunca haviam se falado. Marcela observava constantemente a garota cobiçada, sempre esperando por uma chance, mas faltava coragem. Um dia, como em um sonho, Camila, espontaneamente, disse ao pé do ouvido de Marcela:

- Eu te acho deliciosa. Vem até minha casa que eu vou te comer.

Marcela quase desmaiou, no momento, mas não desperdiçaria a chance de sua vida por causa de um desmaio. Ela pegou o endereço de Camila e marcaram de se encontrar no dia seguinte, após a aula.

Quando o dia esperado chegou, Marcela foi até a casa de Camila. Era uma casa grande, bonita, mas meio sombria. A garota tocou a campainha, mas ninguém abriu a porta. Ouviu a voz de Camila:

- Pode entrar, amor.

Marcela entrou e estranhou. Não havia luz. Um breu total dentro da casa.

- Mas, Camila... Onde você está? Não estou enxergan... AHHH!!!

O corpo de Marcela jazia no chão de ébano.

Horas depois, Camila abriu um caldeirão velho e pesado.

- Acho que já está pronto.

Apagou o fogo e retirou cuidadosamente o corpo que havia ali. A refeição estava pronta.

- Marcela, você é deliciosa. Nunca comi uma garota tão saborosa, assim.

Camila riu intensamente. Era possível ouvir os risos mesmo fora da casa.

E o linguajar coloquial adiciona mais um mal-entendido na sua coleção.
 

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Geschichte: Der Eigenhändler in Aktien

Gilmar foi cobrar o atrasado e, diante de outra frustração, deu o ultimato:

- Mais três dias, tá entendido? Já dei muita chance, já fiquei nervoso... Não vou ficar esquentando cabeça. Três dias, ouviu bem? Depois disso, é o tutu na minha mão ou o teu corpo no caixão. Nem vou mais me esquentar. Tá avisado.

Gilmar vira para a saída e põe-se a caminhar, mas é interrompido pela voz:

- Três dias... Acho que não vou conseguir...

Gilmar volta, bruscamente, e grita:

- ENTÃO, VAI TE FUDER, FILHO DA PUTA!!!

O devedor é atingido por todas as balas que haviam no revólver de Gilmar. Caiu morto no chão.

- Porra... Nem vai ter profissionalismo. Vou desovar o cadáver no contentor de lixo, mesmo.

Gilmar cumpriu com o que falou e logo entrou em seu carro, fugindo rapidamente. Pelas ruas da madrugada, o carro corria e Gilmar pensava. Achava que seria fácil essa vida de agiota, mas nunca contou com um contratempo. Aquele era o seu primeiro. Concluiu o óbvio:

- É melhor eu pensar duas vezes antes de emprestar uma quantia alta... A vida do filho da puta não cobriu o prejuízo.

Gilmar sabia que matar os outros não traria sua grana de volta, mas para quem vive uma vida de pecados, não há por que conter-se ao cometer mais um. Assim ele pensou. E pensando assim, a vida viveu.
 

domingo, janeiro 14, 2007

Geschichte: Geistloses Betreffen

Iriam anunciar o resultado do vestibular, no rádio, daqui a pouco, logo após os comerciais. Há alguns minutos, totalizaram-se setenta e duas horas (os vulgos "três dias") em que ele não dormia. Insônia por nervosismo. Os pais diziam que caso o nome dele não fosse anunciado, não havia problema. Não para eles, mas haveria para si mesmo, pensava. Passou horas a fio estudando, durante o ano todo. Esqueceu de viver, tornou-se paranóico. Começaram a anunciar os nomes. Ao ouvir o primeiro nome, o nervosismo tomou conta dele. Correu até a sacada e pulou para a rua. Décimo-quarto andar, umas algumas dúzias de metros de altura.

E, como todos os jovens que naquele dia foram aprovados no vestibular, ele pulou, mas não foi de alegria. Ficou sujo, mas não foi de ovos, e, sim, de sangue.

Enquanto a alma saía do corpo, pensou se tudo aquilo era necessário, e descobriu que não sabia se havia sido aprovado ou não. De qualquer maneira, tanto faz. Esta vida terrena é aflita demais.
 

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Geschichte: Das faule denkt

José adorava vagabundar. Vagabundar, sabe? Não ter que trabalhar, ficar só no ócio... E pensando. Não sei como o José arrumava tanta coisa pra ficar pensando. Muitas vezes, nem eram coisas importantes. Eram banais. Mas ficar tanto tempo pensando? Nunca vi! Quantas vezes o homem não abdica de sua consciência para virar alguém inconsequente? Quando ele tem relações sexuais sem amor, buscando apenas o prazer, quando ele é dominado pela raiva e mata outra pessoa, quando ele é alienado e não tem que se preocupar com um objetivo sério na vida...

José lembrou que também não estava fora da alienação, pensou até em um jeito de escapar.

- Não, não vai dar certo...

Viu que não daria pra escapar, tentou compensar.

- Pelo menos, vou participar o mínimo possível desse sistema.

Lembrou que precisava do sistema para difundir suas idéias.

- Ah, a Internet, a globalização...

Mas viu que não era tão necessário assim, dado o alto grau de alienação das pessoas.

- E de que adianta eu ter idéias? Nunca mudei uma pessoa, mesmo... Nem mesmo a mim.

Voltou a pensar em coisas banais. Pensou no clima, pensou nas suas doenças... Resolveu pensar no futuro. Será que conseguiria finalmente tocar bem a sua flauta? E os sonhos? Será que se realizariam?

- Mesmo que não se realizem, se eu puder ficar só pensando... Já tenho um consolo.

Pensou em morar no interior.

- Pode ser... A paisagem é mais bonita, o ar é mais puro... Talvez dê pra viver mais, pensar mais... Tocar mais a flauta... E quem sabe eu não realize alguns dos meus sonhos por ali? Se um dia eu conseguir, vou tentar.

Então, lembrou das dificuldades da subsistência.

- Nunca é tarde pra aprender a pescar e plantar... Mas vou ter que comer menos... Senão é trabalho demais.

Pensou em pessoas felizes. Não em pessoas que estão momentaneamente felizes, ele pensou em pessoas que realmente são felizes. Ele gostava delas, lhe davam esperanças. Era curioso ver como pessoas conseguiam ser felizes com tão pouco. Ele pensou de novo.

- Eles não têm dinheiro, têm amor. Deus falou isso, uma vez... Ou foi Jesus... Não lembro. Vai ver algum deles, ou quem sabe os dois, eram filósofos.

A amizade era legal.

- Pessoas que gostam de estar na companhia de certas pessoas, lhe fazem bem, lhe dão alegria. Bem que esse amor e cordialidade podiam se estender.

Lembrou que para melhorar o mundo, deve-se melhorar o homem. E ele também era um homem.

- Penso demais, para alguém impuro. Talvez eu devesse melhorar uma série de coisas em mim, para depois voltar a ter idéias. Fica meio estranho um sujo falando da importância da limpeza... Ou será que é porque pessoas como eu não têm credibilidade, mesmo?

José deu um bocejo. Deitou na cama para averiguar... E o sono veio. Resolveu dormir, o que coroava sua vida de ócio. Vida preguiçosa não tem hora pra dormir, não tem hora pra acordar, não tem hora pra bocejo, não tem hora pra pensar. José e o tempo eram amigos, nenhum deles tinha pressa, nenhum era escravo do outro. Talvez porque José tenha percebido que sua existência neste mundo não será eterna, e o tempo respeite isso. O respeito é mútuo. Respeitando o tempo, serás respeitado por ele. Saber que tudo tem um tempo motivava ele a tentar fazer algo melhor. Contrastava com a sua preguiça, claro, mas ele tinha essa vontade. Quem sabe, se ele conseguisse ajudar alguém, essa vida teria valido a pena. Vamos tentar considerar como um objetivo a ser cumprido, mas, por hoje, o "expediente" fechou. E enquanto a massa levantava para trabalhar, José ajeitava o travesseiro e preparava-se para dormir.

- Deus me deu essa vida por algum motivo. É uma vida com vantagens e desvantagens, como toda outra vida. Cabe a mim descobrir como melhor usar ela. Depois que eu acordar, eu continuo.
 

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Geschichte: Verwirklichung eines Traums

Mal acabara de comer e já estava saindo de casa.

- Mas tão cedo, meu filho?
- É, mãe. Não posso perder tempo, né?

E Wilsom, com a letra eme, mesmo (a mãe viu não sei onde e achou bonito), pegou suas coisas e foi até a casa do treinador.

- E aí, garoto? Tudo em cima, hoje?
- Tudo, sim, treinador!
- Vem! Vamos começar o treinamento.

E treinaram boxe. Contam até que o treinador tinha sido campeão, quando jovem. Ele ganhou fama, mas não ganhou dinheiro. Tinha que viver ali, no subúrbio. Solteiro e sem filhos, tratava Wilsom como se fosse sua própria cria. Ambos almejavam ser campeões. Um, como treinador; o outro, como lutador.

Os equipamentos de uma época remota, que fizeram um campeão, hoje, treinam Wilsom.

- Tem talento... Tá cada vez melhor... Eu, na idade dele, não era bom assim. - pensou o treinador, consigo mesmo.

Era de segunda a sexta. Wilsom acordava, de manhã, ia pra escola, voltava, almoçava e ia pra casa do treinador. Nos fins de semana, ficava lá manhã e tarde inteiras. O garoto nunca se incomodou em ser pobre, incomodava-o era morar ali, naquele local. Wilsom já se acostumou com as balas perdidas e a ver cadáveres pelo caminho que seguia. A polícia não ligava para aquele pobre subúrbio.

- Quer bem feito, faça você, mesmo. - pensou Wilsom.

Se virasse um campeão, Wilsom tiraria dali a mãe e o treinador. Iriam para um lugar melhor. Era o segundo sonho dele, ir para um lugar melhor, junto com a mãe e o treinador. Pensou que também seria bom levar o pai, mas não era possível. Anos antes o pai fora uma das vítimas que ele costuma ver por aí.

Cinco horas da tarde. O treinador olha para o relógio e diz:

- Wilsom, meu filho. Tá tarde. Volta antes que escureça. Você sabe que o negócio por essas bandas é barra pesada.
- Sei, sim, treinador. Vou terminar, aqui.

Wilsom pára de espancar o saco de pancadas e prepara-se para sair.

- Vai com cuidado, Wilsom!
- Pode deixar, treinador.

O sol vai se pondo, e o garoto andando e apreciando aquele tom alaranjado de cores que banhavam o ambiente. Tom esse que misturava-se com outro tom, camuflando o fogo intenso que vinha de uma casinha. Se da combustão não saísse fumaça, Wilsom não perceberia o fogo que funde suas cores à luz do poente sol. Mas da combustão sai fumaça, e Wilson viu a fumaça. Viu a fumaça e correu em direção dela. Era a sua casa, ali, pegando fogo. Pensou na mãe, e apressou-se em averiguar se ela estava lá dentro. Foi impedido por três homens, mal encarados e armados.

- Se liga, moleque! Tu é filho dela, né? O chefe disse que tu ia junto se ela num pagasse antes do prazo. Já era!

Wilsom sabia que aqueles homens faziam parte dos sujos que costumavam matar as pessoas por ali. Lamentou-se da justiça dos homens, a justiça de leis, ser fraca e falha. Resolvou tomar atitude com as próprias mãos. Desferiu socos e mais socos na cara do homem que havia falado com ele, socos e mais socos, Wilsom iria matá-lo e a vingança estaria feita. A raiva destraiu o garoto. Parece que fez ele esquecer que ali eram três, e não apenas aquele quem ele estava golpeando. Os outros dois atiraram por trás, uma vez, cada um. O que estava apanhando, levantou. Atirou quatro vezes em Wilsom... Descontou a raiva de ter apanhado.

- Deixa a velha queimar! Que vão pro inferno!

De orgulho ferido, o homem ferido vai na frente, e os outros dois atrás. Wilsom está morto, a mãe também. Um sonho de Wilsom parcialmente se realizou. Agora, a mãe e ele estavam em um lugar melhor. Quase conseguiste, Wilsom, quase...

Ao saber da notícia da morte do garoto, o treinador também morreu... De suicídio.

Os três devem estar juntos, agora... Em um lugar melhor. Se os fins realmente justificarem os meios, Wilsom deve estar feliz.
 

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Geschichte: Die Guajava

Quatro dias vagando pelo interior daquele país. As casas naquele lugar eram muitas, mas não abrigavam mobília, nem pessoas. Pareciam pedras na beira da estrada, apenas ali, sem muita utilidade. Às vezes, para escapar da chuva, entravam em alguma delas. No resto do tempo, apenas andando, andando... Nunca saiam dali. Haviam riachos, água pura e abundante, mas não haviam peixes. Também não haviam outros animais por perto, nem árvores... Nenhum sinal de comida. Quatro dias sem comer nada, a fome aperta. No final do dia, exaustos, viram uma árvore, à beira de mais um dos riachos, era uma goiabeira. No galho mais alto, a última goiaba.

- É MINHA!
- ESTÁ LOUCO?! EU VI PRIMEIRO!

Os dois discutiram, argumentaram, um tentando provar ao outro ser o mais faminto. Quando as palavras falham, a atitude entra em cena. Um deles tira o revólver da cintura, atira. O outro é jogado para trás com intensa força. Bateu com o corpo na goiabeira. Do seu corpo, caiu sangue; da goiabeira, a última goiaba. Quando do galho ao chão chegou, rolou... rolou e entrou no riacho. Um passeio na correnteza.

- VOLTE AQUI!

O homem que restou, pulou na água. Era a última goiaba, só tinha aquela. Infelizmente, na ânsia causada pela fome, esqueceu do importante detalhe: Não sabia nadar.

O corpo ancorou a pouco menos de um quilômetro dali, preso em um troco que havia no riacho. Com suas últimas forças, viu que não era o único ali, a goiaba estava ao seu lado. Ele riu, mas era tarde demais. As forças lhe faltavam. Morreu.

A goiaba continuou ali. Ninguém ficou com ela. Talvez, se tivessem pensado em dividir...
 

terça-feira, janeiro 02, 2007

Was ist Ausbildung?

Nunca mais eu tinha escrito um texto reflexivo pro blog. Na verdade, tudo o que escrevo é reflexivo, porque sempre faço uma tira ou conto inspirado em alguma bobagem. Talvez até os contos sem sentido também sejam assim, inspirados em algo. Esses tempos eu tava pensando sobre educação. Inventam cada definição pra isso. Já vi várias, do tipo:

- Fulano é bem educado. Não fala palavrões, nem grosserias.
- Fulano é educado na arte da música. Compõe coisas muito bonitas.

Às vezes, parece que educação é ter boas maneiras, outras vezes, parece que é ter instrução. Alguém te ensina que falar "por favor" e "obrigado" é bonito, mas não diz por quê. A educação, hoje, parece ser uma convenção: "Todo mundo tenta ser educado, logo vou ser também". O indivíduo segue o fluxo da maré. Sorte dele que é a educação é coisa boa, porque, se não fosse, ele estaria seguindo a maré sem questionar. Quando se faz algo bom, deve-se ter em mente o que é esse algo, por que estou fazendo e como irá ajudar. É a trindade do conhecimento, intenção e finalidade. O fato da educação ser considerada uma virtude ajuda muito a seguirem-na cegamente, e quando você segue cegamente, quebra a trindade, porque não tem conhecimento do que é, o faz com as erradas intenções e acaba não obtendo tanto êxito na finalidade como deveria. Melhor explicando, como consideram a educação como virtude, e o ser humano parece ter um ego faminto, cheio de orgulho, vai querer ter essa qualidade, também. Infelizmente, não porque ele irá melhorar com ela, mas para tornar-se "mais perfeito", para ter com o que alimentar o ego. Foi assim, na Idade Média, que os nobres inventaram algo que até hoje é associada à educação, a etiqueta. Querendo serem melhores que a plebe, e querendo fazer a plebe acreditar nisso, os nobres passaram a ter um padrão de comportamento que só dizia respeito a "seres superiores", cuja definição de "seres superiores" era feita pelos próprios nobres. As regras desse padrão de comportamento eu não sei todas, sei algumas, como não comer com as mãos, ter postura correta ao sentar na mesa, saber qual talher usar para cada alimento... Ou seja, coisas fúteis. Algumas dessas regras até que têm relação com a higiene, mas não foram criadas com esse intuito. É até sacanagem exigir que um pobre coma de talher e postura ereta, quando ele não tem comida, mesa ou sequer o talher. Embora os nobres julgassem a si como superiores por terem etiqueta, a maioria deles era muito mais impura que a plebe, pois possuiam ganância e soberba desenvolvidos a um nível exorbitante. Também nunca vi os outros animais comerem de garfo e faca, assim como também nunca vi eles destruirem o mundo tanto quanto os homens fazem. Um ser superior destruiria o mundo em que ele mesmo vive? Acho que não. Não estou dizendo que "garfo e faca" profanam a boa vontade do homem, se alguém interpretou assim, mas, com certeza, a etiqueta não traz nada ao homem, a não ser o cunho elitista desse padrão de comportamento, que era subjulgar mais ainda os oprimidos fazendo-os pensar serem inferiores.

Certo, certo... Mas por que dizer "obrigado" e "por favor"? São palavras mágicas? Acho que não, porque, em inglês, são ditas "thanks" e "please", respectivamente, e possuem o mesmo significado. Aí está! O significado! Não é algo literal, como o significado de "quadrado", que é um "polígono regular de quatro lados". Falo de um significado maior. Quando digo "obrigado" a alguém, estou expressando minha gratidão à pessoa. Se você realmente sentir-se grato a alguém, diga "obrigado". Faz bem a você, por mostrar que você tem gratidão, faz bem a quem ouve, por mostrar que você apreciou o que ela te fez. "Por favor" significa que você pede algo não como ordem, mas respeitando a vontade que a pessoa tem de fazer ou não o que você pede. Também representa que você gostaria da ajuda daquela pessoa, no momento. Pode ser favor pequeno, ou favor grande, mas um "por favor" mostra que você respeita a quem o favor foi pedido.

A educação seria uma forma de harmonizar as pessoas, uma forma de melhor tratar uns aos outros. Toco mal minha flauta, e o vizinho não gosta. Os cachorros do vizinho latem, e eu não gosto. Nunca reclamei dos cachorros, e ele nunca reclamou da flauta. No momento, não estamos sendo educados, estamos nos aturando. Um dia, quando eu perceber que é da natureza dele ter os cachorros (e da natureza dos bichos latir), assim como ele perceber que é da minha natureza querer tocar flauta, além de ambos percebermos que tudo isso é banal e faz parte da vida, nos harmonizaremos. Viveremos juntos ao som de notas musicais e latidos, sem nos preocuparmos, faz parte da vida, faz parte da educação.
 

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Reforming das blog

Pessoal, dei uma arrumadinha no blog. Mudei as cores pra algo que achei mais bonito e agradável aos olhos. Fica mais fácil de ler, também. E falando (ou escrevendo) em facilidade de ler, aumentei as letras dos posts, um a um.

Acho que é todo esse trabalho com o blog que explica as centenas de comentários que recebo diariamente. Também estou começando a acreditar que escrever neste blog tem tanto efeito quanto falar sozinho.

Tem alguém aí, porra? Tomara que tenha. Deixei o blog tão bonitinho pra ler e ninguém lê? Maldade com o Zé. :(

Teller des neuen Jahres

Acho legal quando a mãe cozinha, a comida sai gostosa, mas a louça é foda. Hoje, ela cozinhou. A louça não saiu pequena. Lavarei agora, de madrugada. Nem sei por que, mas não quero deixar todo esse trabalho pra ela. O que a gente não faz por amor? :(

Fotos do loução: #1 | #2 | #3