Geschichte: Der Bettler
- Um pão, um pão! Por favor!
- Vai te fuder, vagabundo! Tô atrasado!
Era comum, na vida de Moisés. Era mendigo, mas um tanto diferente dos outros. Tinha um pouco de instrução, estudou até o segundo grau, sabia ler e escrever. Já teve um emprego, mas o demitiram. Nem foi culpa dele. Corte de custos, mandam embora vários. Acontece. Moisés tinha perdido os pais para a morte, e a sua própria vida para o sistema, o capitalismo. Às vezes, era paciente, aturava o que os outros lhe faziam. Mas nem sempre. Haviam dias em que Moisés revidava. Xingavam ele, e o mendigo xingava de volta. Isso quando ele não resolvia bater no desafeto. Por causa disso, já era manjado pelos policiais.
- É o Moisés, o vagabundo. Em vez de trabalhar, enche o saco. Vez ou outra bate em alguém. Ninguém vai ficar prendendo ele pra sempre, não. Qualquer dia, a gente desova o cadáver dele por aí.
Moisés sabia que os policiais eram sujos, que queriam pegá-lo. Sabia que eles só garantiam a paz dos individualistas, dos que foram absortos pelo sistema, as engrenagens mais importantes da máquina. Se pudesse, matava todos os policiais. Matava todos os capitalistas, também. Forte ele era, mas não tinha a força estava fraca. Não comia há doze dias.
- De fome eu não morro! Faço besteira, mas de fome eu não morro!
Entrou em uma padaria, portanto uma garrafa de pinga partida irregularmente ao meio, o que deixava nela vários dentes afiados, e segurava pelo gargalo. Entrou gritando, uma espécie de grito de guerra, só para assustar o pessoal. Sairam de lá correndo o padeiro, o ajudante do padeiro, o caixa e mais quatro clientes que ali estavam.
- Fujam, fujam! Burgueses malditos!
Padaria vazia, pulou para trás do balcão e fartou-se em pães, salgados, doces, bolos. Comia rapidamente, de velocidade que só a fome proporciona. Nem ligou pros gritos.
- Ali! É aquele mendigo ali! Ele tá armado! Tá destruindo minha padaria!
E entra um homem fardado, na padaria.
- Porra, Moisés! Acabou minha paciência contigo!
E deu com o cacetete, na nuca do mendigo.
Semi-consciente, ainda pôde perceber que o policial pegou o revólver, mas notou a hesitação no rosto dele.
- Ele tá ponderando se me mata ou não... Quer se ver livre de mim, mas tem medo de complicar pra ele. Eu também quero me ver livre dessa vida de merda. Vou incentivar. - pensou Moisés, consigo mesmo.
E o maltrapido disse com as poucas energias que lhe restavam:
- Tá com medo, homem? Atira que tu és do cão. Tás cheio de morte nas costas, não pára agora. Tu já tás com a passagem pro inferno, faz o que quiseres daqui. Atira! Atira agora! Atira enquanto eu tô de barriga cheia, que de fome eu não morro.
Raivoso, o policial atirou. Moisés morreu na hora. Morreu diferente de vários mendigos. Morreu desafiando, peitando o sistema que o arruinou, e morreu de barriga cheia. Tem mendigo que nem urubu chama, por nem carne ter. Moisés chamou. Corpo desovado em perto da ponte, sem nenhum velório. A não ser o típico rodear dos urubus, que rodavam o céu como uma última homenagem ao mendigo. Depois, a cadeia alimentar funciona, e a carne podre é comida. Moisés, agora, procura um outro lugar pra viver. Um outro mundo, um lugar melhor.

