sexta-feira, janeiro 26, 2007

Geschichte: Nomadischer Ausfall

No oitavo andar da construção, os trabalhadores não poupavam esforços nas suas tarefas. Vendo de longe, de um lugar que proporcionasse uma vista panorâmica, tinha-se a impressão de que eram máquinas. Não sei se pela habilidade com as tarefas, mas, na minha opinião, pareciam máquinas por possuirem sempre a mesma expressão facial, por nada falarem. O relógio marcava duas da tarde, nesta hora o calor é intenso. Será que nenhum deles seria capaz de pronunciar um "que calor miserável"? Será que ninguém reclamaria de dor nos braços, dor nas costas? Só quem resiste assim é uma máquina. Ah, espere um pouco. Parece que tem alguém mais humano, lá.

- Que calor miseráver! E essa dor nas costa que num me dexa em paz!

Alguém havia prolongado um pouco mais a folga do horário do almoço. Era um belo contraste. Enquanto todos trabalhavam roboticamente, havia alguém sentado, reclamando sozinho o que todos ali sentiam.

- Ô, você aí, vagabundo!

Parece que chamaram o preguiçoso.

- Por que não está trabalhando, como os outros?
- É que tô cansado...
- Cansado? Escute aqui, seu peão de merda, a gente está te pagando, e é pra você trabalhar, senão vai parar no olho da rua! Entendeu?

Depois de ouvir a bronca, ele levantou. Pôs-se em frente ao bronqueador.

- Escute aqui ocê! Eu num sô fio de desonrada pra ouvi essas coisa de home da cidade feito ocê! Fale assim comigo de novo e ocê vai levá uma surra que num vai mais esquecê!

O engenheiro sentiu o sangue gelar. Ah, sim, esqueci de contar. O "home da cidade", o ameaçado de surra, era o engenheiro que supervisionava os trabalhadores. De qualquer maneira, sentiu o medo. Enquanto protegido pelo sistema de leis, ele era corajoso. Podia demitir os inferiores, podia gritar, humilhar eles. No entanto, quando algum trabalhador esquece o sistema que o rege, e passa a resolver as coisas na velha lei do mais forte, o engenheiro percebia que o seu corpo franzino não era páreo para sobreviver a essa lei.

- Por favor, não precisa ficar brabo. Só estou lhe dizendo para continuar o trabalho.

O trabalhador sorriu. Sabia que havia imposto autoridade naquele homem arrogante. Mesmo assim, não gostou de ter levado bronca. Seu nome era Nicolau, vindo de um interior do país. Onde nasceu, sempre foi rodeado de pessoas que davam valor à honra pessoal, e assim ele cresceu. Acabou ficando muito orgulhoso, também. Podia até ter tirado o prego da tábua, ao intimidar o engenheiro, mas que a marca do prego havia ficado, sim, ela havia.

- Num precisa. Eu num quero mais esse emprego. Ocê se acha miór que os otro pruque sabe levantá prédio? Ora, eu faço muito miór que isso. Ocê vai vê, num precisa nem esperá sentado que saindo daqui eu vô já começá a trabaiá!

E Nicolau foi descendo a construção, foi rumando pra casa. Chegando lá, nem falou com a esposa e com os filhos, foi direto para o quarto. Pegou um dinheiro que havia guardado em uma caixinha.

- Vai sê difícir, mas preciso do dinheiro da branquinha. É por uma boa causa.

A mulher viu a cena.

- Vai bebê, home?
- Vô nada. Vô mostrá pr'esses troxa da cidade cumé que se faz um prédio.
- Tá maluco, home? Cumé que ocê vai fazê um prédio com esse dinherinho?
- Ara! Vá aporrinhá otro, muié! Dexe que sei muito bem o que faço!

Ele saiu do quarto e saiu de casa. A mulher não ficou impressionada. Ela sabia que era questão de honra. Se havia algo que podia fazer Nicolau deixar de lado o seu vício de bebidas alcoólicas, com certeza era questão de honra. Embora soubesse que a maioria das "questões honrosas" do marido eram bobas e tolas, ela gostava desse sentimento dele. Não por realmente admirar o sentimento, mas porque, pelo menos enquanto durasse, Nicolau não bebia, e tudo era melhor. Ela lembrou até do motivo pelo qual vieram à cidade. As bebidas do marido. Tinham vida estável, no campo, mas ele bebeu demais, esqueceu de trabalhar, as dívidas acumulando... "Miór nem lembrá mais", pensou a mulher.

O caipira estava agora na lojinha de materiais de construção. Comprou um milheiro de tijolos e, com muita lábia, convenceu o dono do estabelecimento a ajudar com o transporte deles, levando-os numa pequena caminhonete. Após descarregar os tijolos no quintal de sua casa, Nicolau despediu-se do homem e começou a sua obra. Sem nem sequer usar cimento, começou a empilhar os tijolos, um a um. Começou a chover. A mulher grita:

- Vem pra cá, home! Num fique aí se molhando!

Nicolau corre pra dentro de casa e espera a chuva passar. A chuva engrossa, os ventos tornam-se mais intensos, mais rápidos. Não demora muito e... Lá vem o barulho. Trovão? Fraco demais pra ser um. O que era? Ah, eram os tijolos. A obra de Nicolau havia desmoronado.

- Tá vendo? Eu num disse que ia sucedê errado?
- Mas foi por causa da chuva. Se não, ia ficá maió do que o prédio daquele engenhero besta.
- Ai, Nicolau... Quando ocê vai aprendê, hein? Pelo meno, vê se amanhã ocê sai cedo e vai procurá um emprego. Nós num pode vivê sem dinhero, home.
- Tá, tá... Amanhã eu vejo isso.

No dia seguinte, Nicolau vai em outra construção, arrumar emprego. Tirou uma sorte grande: O emprego novo pagava o dobro, e ainda era mais fácil. E Nicolau estava empregado, novamente.

Naquele mês, tudo correu bem. Até Nicolau receber, o dinheiro do salário anterior daria para pagar as coisas. Sem o dinheiro da cachaça, o caipira manteve a sobriedade. Foi melhor. Parou de brigar com a esposa, tratava melhor os filhos, trabalhava melhor.

No início do mês seguinte, Nicolau recebeu o salário. Era o dobro do anterior, não estava acostumado com todo esse dinheiro. Ficou extasiado. Foi beber. Bebeu, bebeu, bebeu... Varou a madrugada, nem apareceu em casa. Raiou o dia, foi direto pro trabalho. Chegou embriagado, discutiu com o patrão, foi demitido. Já passando o efeito do álcool, voltou pra casa com a idéia.

- Muié, vamo voltá pro campo. Só tem troxa nessa cidade.

De novo?! Quem vai pôr na cabeça do Nicolau que não adianta mudar de lugar, se levar a impenitência junto?