quinta-feira, janeiro 25, 2007

Geschichte: Unterschiedlich sein

Ninguém sabe como Maurício surgiu ali, naquela época. Se não houvessem as típicas testemunhas, que datam em documento a hora, dia, mês e ano de nascença da pessoa, qualquer um poderia ter as mais loucas teorias sobre o rapaz, como dizer que ele foi trazido por uma máquina do tempo, ou que fora congelado durante anos, para voltar à vida neste período. Era o ano de dois mil e sete, pelo menos no calendário que os brasileiros em geral usam. Maurício sabia disso, mas seus gostos e estilo faziam muita referência aos anos da década de mil novecentos e sessenta. Tinha lá seus amigos, não muitos. Temiam Maurício. Temem terroristas, assaltantes e qualquer um que lhes possam tirar a vida. No entanto, Maurício era temido por ser diferente. Nem tão diferente. Em certa época, houveram milhares como ele. Agora, era diferente.

- Doido varrido, esse Maurício. Quanto mais distância, melhor.
- Sujeito ultrapassado. Apegado ao passado. Com certeza, não é boa pessoa.

Os jovens "atualizados" tinham seus carros, as mais diversas marcas: Honda Civic, Corolla, Ford Ecosport, etc. Maurício tinha o dele: Um velho calhambeque.

Carolina era uma garota muita bonita. Cursava faculdade, algum desses cursos. Jovem, bonita, cobiçada. Cobiçada por muitos homens, cujas cobiças assemelhavam-se às cobiças dos cães sem donos, que adentravam os açougues e fitavam os generosos pedaços de carnes, enquanto estivessem com fome. Se alimentados, não dirigiam olhar à carne, até que a fome viesse, novamente. Era aquele sentimento de necessidade temporária, não era amor à carne, era a curta realização de uma vontade. Carolina sabia disso, não ficou bonita da noite para o dia. Já há algum tempo, a garota vinha entediando-se. Estava cansada dos mesmos homens, da falta de caráter e da submissão de valores deles. Ponderava se era sábio ser assim, resistente, se o melhor a ser feito não era cair na boca daqueles cães. Talvez ela fosse só um pedaço de carne, mesmo. De qualquer maneira, preferiu conservar-se intacta. Não daria de comer àqueles cães. Poderiam latir até a exaustão total. Não teria efeito.

Houve uma festa, por aí, em algum lugar da cidade. Honda Civic, Corolla, Ford Ecosport... Todos estavam lá, acompanhados de seus donos. Carolina também estava lá, recebendo xavecos de quase todos aqueles rapazes.

- E aí, gostosa! Entra no meu carro e vamos dar um rolé!

Carolina ignorava, tentava esconder a raiva. O porta-malas de quase todos os carros estava aberto, com possantes caixas-de-som gritando os ruídos que os jovens chamavam de música. Música estranha, por sinal. Totalmente feita por um computador, sem o mísero toque de um instrumento musical. Diziam ser coisa do passado, esses instrumentos. O computador reunia todos em si, além de transformar o som deles.

Carolina nem sabia por que estava ali. Tinha ido para se divertir, mas naquele ambiente era impossível. Os xavecos eram incessantes. Cada jovem encostado em um carro fazia a sua proposta indecente. Saindo daquele lugar, passando pelos últimos carros, e pelos últimos xavecos, Carolina reparou que houve um único jovem quem não dirigiu uma palavra a ela. Vestia camiseta branca, jaqueta preta de couro, por cima, calça jeans. Mãos no bolso da jaqueta e encostado em um calhambeque. Seu nome era Maurício.

A garota aproximou-se do rapaz. Era diferente, atrativo. Começaram a conversar. Maurício tinha o seu jeitão peculiar, mas mostrou uma boa conversa. Falava de coisas além do consumismo, da alienação. Carolina sentiu-se bastante à vontade. Conversa vai, conversa vem, e quem tava de fora começou a reparar. Logo Maurício, o estranho, recebendo a atenção negada a todos os bonitões daquele lugar? Não demorou muito e o casal entrou no calhambeque. O motor foi ligado, o toca-fitas também. Tocava não tão alto "Eu Sou Terrível", do Roberto Carlos. E o calhambeque ia abrindo caminho, naquela multidão de jovens sólitos.