domingo, fevereiro 25, 2007

Geschichte: Nie für immer

Quanto mais forte o vento soprava, mais alegre Marquinhos ficava.

- Hahaha! Olha só como minha pipa voa longe!

Já estava brincando há quatro horas. O vento colaborava, e o menino não se cansava. No entanto, dizem que nada que é bom dura para sempre. Ricardo, um garoto da rua onde Marquinhos morava, faria ele aprender essa lição.

- Aquele Marquinhos... Se divertindo enquanto tenho que fazer a faxina da casa. Isto não vai ficar assim.

Ricardo pegou uma pipa que tinha guardada e um carretel de linha.

- Muito bem, Cobra. Vamos mostrar pra aquele menino como se empina uma pipa.

E subiu ao céu uma segunda pipa, com o desenho de uma cobra nela. A pipa de cobra correu em direção à pipa de Marquinhos, feita de papel-jornal. Não demorou muito para que a linha de Ricardo cortasse a linha do outro garoto, fazendo com que a pipa de papel-jornal se perdesse no ar.

- Hahahahahaha! Agora, sim, Marquinhos! Aprenda que nada que é bom dura pra sempre! A única coisa que dura pra sempre é o meu tormento, minhas tarefas diárias... E, se eu não me divirto, ninguém nessa rua se divertirá. Mas, agora, vamos rir, Marquinhos! Estou me divertindo muito! Estou me deliciando com a sua derrota! Hahahahaha!

Marquinhos correu em direção ao garoto, roubou o carretel de linha cortante e, com ela, começou a enforcar Ricardo.

- N-Não, Marquinhos! P-Pare! N-Não!

Alguns minutos depois, a linha já penetrava profundo na garganta de Ricardo, cortando-lhe a jugular. Quando ele cortou a pipa de Marquinhos, conseguiu sua desejada diversão, mas nada que é bom dura para sempre.
 

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Geschichte: Bürokratie

Tião foi reclamar o que lhe era de direito. Estava conversando com o atendente do banco.

- Seu salário está aqui em minha mão, senhor. No entanto, você deve assinar mais essas três vias para recebê-lo.
- Meu Deus! Mais assinaturas? Já tô a mais de duas semanas assinando papel, trazendo documento de lá pra cá, de cá pra lá... Quando isso vai acabar? Tudo isso só pra tirar o atrasado, que é meu por direito?
- Sinto muito, senhor. São as normas. Apenas mais essas três vias e estará tudo pronto.
- Tá, tá! Me passa os papéis!

Depois de assinar, o homem devolveu os papéis.

- Toma. Tudo assinado. Posso receber o meu atrasado, agora?
- Claro, senhor. É só mostrar o recibo de comprovação do requerimento.
- Como?
- O recibo de comprovação do requerimento, senhor. Não lhe falaram?
- Não me avisaram nada disso!
- O senhor leva o requerimento para o Ministério do Trabalho e eles lhe dão um recibo. É estimado que o procedimento dure de três a quatro dias.
- Mas eu já estou há duas semanas tentando receber meu atrasado! Há duas semanas! Já não aguento mais!
- Sinto muito, senhor. Apenas cumpro as normas.
- Só cumpre as normas, né?

Tião moldou as normas à sua maneira, e pôs as mãos no pescoço do atendente.

- Quietinho, quietinho. Não vai doer nada.

Tião começou a apertar forte, e a vítima se debatia sem parar. Não durou muito até que ela parasse de se debater. O trabalhador pegou o dinheiro que estava com o atendente e foi embora do banco.

- Essa burocracia é mesmo de matar - pensou Tião, por final, rindo consigo mesmo.
 

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Geschichte: Rauch der Freiheit

Jorge estava fazendo compras no supermercado, quando encontrou um amigo.

- Monteiro! Você por aqui?
- É, amigo. Mas não vá se acostumando. Só estou aqui porque minha mulher adoeceu e tive de fazer o supermercado, esta semana. E você? Por que está aqui?
- Eu sempre faço o supermercado, Monteiro.
- Não diga, Jorge. E sua mulher, o que faz?
- Errr... Bem...
- Jorge, andei sabendo que é você quem cozinha, você quem lava, você quem faz as compras, você quem trabalha... O que aquela mulher faz?
- Bom...
- Olha, Jorge, nem invente desculpa. Pra mim, ela te fez de escravo. O que é isso, meu amigo? Toma uma atitude! Procura liberdade!

Jorge voltou pra casa pensando nas palavras do amigo. Refletiu sobre elas diversas vezes. Será que ele era mesmo um escravo de sua mulher? Assim que chegou em casa, ela avisou a ele:

- Jorge, sairei com minhas amigas. Faça o almoço. Hoje eu quero filé mignom.
- Filé mignom eu esqueci de comprar...
- Porra, Jorge! O que você tem na cabeça?
- Será que você não poderia ir comprar, quando for sair?
- É o jeito, né? Tenho que ajeitar todas as tuas falhas, seu imprestável!

A mulher saiu e Jorge foi fazer a faxina da casa. Refletiu mais ainda.

- A maneira como ela me trata... Não é como uma mulher deve tratar o marido...

Limpou todos os cômodos da casa e esperou a mulher voltar, trazendo a carne para ele preparar o almoço. Alguns minutos depois, ela chegou.

- Trouxe a carne?
- Ah... Almocei no shopping, mesmo. Ia demorar muito eu esperar você fazer.
- Mas eu estava esperando a carne pra almoçar! Você disse que queria almoçar filé mignom! Então, eu não fiz nada, achando que você traria a carne e almoçaríamos isso! Fiquei esperando um tempão, faminto, pra você chegar e dizer que não trouxe a carne?
- Jorge, não me torra a paciência, entendeu? Vai passar a roupa!

Espumando de raiva, o homem foi até a cozinha e pegou uma faca afiadíssima. Avançou na mulher.

Pouco tempo depois, Jorge percebeu que resolveu dois problemas num piscar de olhos. Em primeiro lugar, ele conseguiu a carne, embora não fosse bovina. Em segundo lugar, ele conseguiu o que Monteiro lhe havia sugerido: A liberdade.

No dia seguinte, a fumaça fluía do quintal de Jorge. O vizinho olhou pelo muro e viu uma enorme fogueira acesa.

- O que é esse fogo todo, compadre?
- Ah... É só um lixo... Que por muito tempo atrapalhou minha vida, mas nunca tive coragem de limpá-lo... Até hoje.
- Faz bem limpeza, não é?
- Sim. Limpa até a alma.

A fumaça continuava a correr livre, pelo céu, assim como Jorge correrá, de hoje em diante.
 

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Geschichte: Verdorben

Felipe estava na casa da namorada, era o grande dia.

- E então, Felipe? Vamos?
- Claro!

No quarto, a namorada tira a roupa e pergunta:

- Tá excitado?
- ... mais ou menos.
- Por quê?
- É que, na verdade, eu queria te pedir algo... Eu queria realizar uma fantasia sexual minha.

A namorada faz uma cara bem obscena. Caminha sensualmente até ele e diz:

- Peça o que quiser, gostosão!
- Verdade?
- Claro.
- Bom... Eu... Queria me masturbar, pensando em ti.
- HÃ?!
- É... Só que assim... Ao vivo. Você fica parada, nua... E eu me masturbo.
- Porra, Felipe! Você tá brincando, né?
- Claro que não! Eu te conheço há cinco anos, e nunca tive uma tara tão grande quanto essa!
- Felipe, eu tô te oferecendo sexo puro e você quer apenas se masturbar?
- Você disse que ia realizar minha fantasia! Eu quero isso há anos!
- Olha, cai fora daqui, vai! Você é muito mole pro meu gosto!
- Mas, mas...
- CAI FORA! JÁ DISSE!

Felipe sai chorando da casa da namorada. Nunca havia sido tão humilhado em toda a sua vida. Prometeu vingança.

No dia seguinte, quando o sol estava no centro do céu, Felipe estava escondido na esquina, observando o portão de um colégio.

- Vamos... Aparece... Já está na hora... - sussurava sozinho.

A garota apareceu no portão e saiu andando na direção oposta onde Felipe estava escondido.

- Finalmente, apareceu!

Felipe deu a volta no quarteirão.

- Eu conheço teus passos, putinha! Sei que você volta sozinha pra casa, e andando. Vou te pegar assim que eu der a volta no quarteirão. - falava sozinho, novamente.

Conseguiu contornar a quadra, e apareceu bem em frente à garota.

- Surpresa?
- Felipe! O que você tá fazendo aqui?

O rapaz tirou um porrete que escondia na sua mochila e acertou na nuca da garota, que caiu semi-consciente no chão.

- Sabe o que gosto nessa rua? É que quando tá na hora do almoço, ela é bem deserta. Posso fazer o que eu quiser contigo, agora.

Felipe abaixou as calças. Com uma mão, ele estrangulava a garota indefesa. Com a outra, ele masturbava-se freneticamente.

- E agora, desgraçada? Quem é o mole? Quem é o mole?

A garota tentava gritar, mas a pancada anterior havia afetado muito as suas capacidades. Ela apenas podia sentir a respiração ficando mais pesada e um sono muito profundo. Adormeceu sem nem sequer conseguir mexer o corpo, para livrar-se da mão que a enforcava.

Assim que a garota fechou os olhos, Felipe ejaculou. Passado o efeito da excitação sexual, o rapaz percebeu o que tinha feito. Viu o corpo sem vida da garota. Começou a chorar. Ele mesmo tirou a vida da mulher que amava. Como ato de redenção, despediu-se com um último beijo na namorada e pulou em frente a um carro que passava em alta velocidade, pela rua. Felipe fora enganado pelos seus instintos sexuais.
 

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Geschichte: Die Dusche

Jamião cansou das mentiras do padre, que muitas vezes lhe extorquia dinheiro. Pegou a pistola e entrou na igreja, logo após a missa. Gritou:

- Jesus não quer o meu dinheiro, padre. Você quer!

Jamião atirou diversas vezes no velho. Voltou correndo para casa.

- Filho, logo virão me buscar... Você não tem com quem ficar... Sua mãe já não está mais entre nós, então... Acho melhor você vir comigo.

Agarrou o filho e entrou no boxe do chuveiro. Ligou o aparelho. A água caía e misturava-se com as lágrimas do homem.

- Filho, não precisamos de ninguém para falar com Jesus. Vamos nós mesmos lá, com ele... e com sua mãe, também.
- Como, papai?
- Esse chuveiro é como um... portal divino. Me entenda. Confie em mim.
- Tudo bem, papai.

Jamião hesitou um pouco, mas logo tomou sua decisão. Segurou forte o filho e disse para o alto:

- Perdão, meu Deus. Mas essa vida miserável e de miséria tem que acabar.

O braço do homem alcançou o interruptor do chuveiro que mudava a temperatura da água. Ele empurrou o interruptor, liberando a eletricidade. Como um sapo pula de pedra em pedra para atravessar a lagoa, a força elétrica pulava de gota em gota, e de cada gota para outras gotas. Abateu Jamião e o filho como uma redentora, e os salvou das dores mundanas. Deus acolheu os seus filhos oprimidos.
 

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Geschichte: Langsam leben

Rogério levava bronca do chefe:

- Olha pro relógio, porra! Tá vendo que horas são? Oito e quinze! Era pra tu estares aqui às oito!
- Eu sei, chefe, mas é que eu venho de bicicleta e, às vezes, me atraso.
- Não quero nem saber! Se atrasar mais uma vez, é demitido! E vê se traz um perfume contigo! Tu chegas fedendo pra caralho e não quero mau cheiro aqui na repartição!

Rogério trabalhou cabisbaixo, naquele dia. Sempre pensou que um carro resolveria seus problemas: Não chegaria mais atrasado, não chegaria suado e mal-cheiroso, nem mais seria humilhado pelo chefe, na frente dos colegas de trabalho.

A partir daquele dia, Rogério começou a acordar mais cedo, para evitar atrasar-se por não ter um carro. Ia para o trabalho sempre maldizendo a bicicleta.

- Que sono... Se eu tivesse um carro, poderia acordar bem mais tarde... Mas só tenho essa maldita bicicleta!

Chegava no trabalho, abria uma mochila que trazia nas costas e tirava uma camisa limpa e perfumada.

- Ai, meu Deus... O que eu tenho que aguentar por causa dessa bicicleta!

Assim reclamava Rogério, diariamente. Os anos foram passando, o assunto na repartição passou a ser sobre doenças.

- O médico disse que tenho isto porque sou ocioso.
- Comigo não é diferente... Esse ócio tá me enchendo de doenças.

Rogério ouvia a conversa dos colegas e percebeu que somente ele estava em ótima saúde. Enquanto todos os outros tinham um carro, ele tinha uma bicicleta. O pedalar diário havia trazido boa forma e resistência para o seu corpo. Desde então, Rogério passou a ser o mais ativo e vigoroso da repartição. Os outros, doentes, ficavam pra trás, enquanto ele rapidamente se destacava na empresa. Não demorou muito para ser promovido. Com a promoção, o aumento de salário. Com o aumento de salário, o velho sonho.

- Finalmente, vou poder comprar um carro!

E assim Rogério fez. Comprou um carro bonito, de marca boa. Na primeira ida motorizada ao trabalho, o homem deparou-se com algo que não havia na ciclovia em que costumava pedalar: Um caminhão ultrapassando o sinal vermelho da esquina e indo em sua direção. Rogério tentou desviar, mas não conseguiu. Seu carro parou embaixo do caminhão, e começou a pegar fogo.

Os paramédicos chegaram:

- João, me traz o extintor, rápido!
- Como é que ele tá?
- Não sei! Vou ver agora.
- Meu Deus!
- Vai dar trabalho pra perícia... O corpo está irreconhecível.
- De qualquer maneira, também é um ser humano... Vamos tirar ele daí.

Os dois tiraram o corpo que outrora abrigou a alma de Rogério, e logo cobribram com um grosso lençol branco, a fim de evitar a visão da população curiosa que logo se amontoou por ali.

Rogério ultrapassou a vida tão rápido quanto um carro ultrapassaria uma bicicleta... E esse foi o seu erro.
 

domingo, fevereiro 11, 2007

Geschichte: Hagel zu den Mißverständnissen

- Chiquinho, vem cá! Papai trouxe algo pra você.
- O que é, pai?
- Ah, é uma coisa que você vinha me pedindo há muito tempo.
- Não vai me dizer que é...
- Sim, filhão. É o seu videogame - diz entregando um embrulho nas mãos do filho.
- Que alegria! Que alegria! Finalmente, chegou! Chegou o meu Playstation!

Chiquinho tira o papel de presente que envolvia a caixa e lê o que havia escrito nela: Pleisteition.

- Pai... Que troço é esse?
- É um Pleisteition, oras. Não foi o que você me pediu?
- Pai, eu pedi um Playstation!
- E qual a diferença?
- Tudo! Desde o nome até os jogos! Aqui na caixa tá dizendo que só funciona jogo de Atari.
- Ah, Chiquinho... Disso tudo eu não entendo. Fica com o videogame que é melhor do que não ganhar nada.

O garoto ficou meio emburrado pelo mal-entendido, mas acabou ficando com o videogame. Ele sabia que o pai não era rico, não tinha como ter algo melhor. Ligou o aparelho na televisão e começou a brincar, quando Sidney, o vizinho rico, passou pela janela da casa do menino e perguntou:

- O que é isso aí, Chiquinho?
- É o meu Pleisteition.
- O que, rapaz?
- Meu Pleisteition.
- Hahahahahahahahahahahahaha!!!!! Tá falando sério?
- Tô, Sidney! Vai me deixar jogar em paz ou não?
- Vou, sim. Errr... Espera um pouco que já volto.

Chiquinho voltou a brincar com seu novo brinquedo, mas, quinze minutos depois, Sidney volta a aparecer na janela. Dessa vez, trazia uns dez garotos consigo.

- Olha lá o videogame do Chiquinho, pessoal. É um Pleisteition. Olha a mixaria! Os jogos não têm nem mais de 32 cores!
- Hahahahahahahahahaha!!!!! - riam os outros garotos.

Chiquinho espumou de raiva, e prometeu:

- Um dia, vocês ainda vão se ajoelhar diante do meu videogame!

Uma semana depois, o presidente dos Estados Unidos George Walker Bush anunciava em rede televisiva mundial: "Os Estados Unidos entraram em guerra com o Brasil, pelo controle da Amazônia". A partir daquele momento, todos os laços comerciais do Brasil com os outros países foram cortados. As importações de tecnologia pararam, e todos os eletrodomésticos de entretenimento foram confiscados para que suas peças pudessem servir de apoio na produção bélica. Um dia, os confiscadores chegaram na casa de Chiquinho.

- O que é isso aí, garoto?
- É um Pleisteition.
- O quê?
- Um Pleisteition.
- E essa televisão aí?
- É uma CCE, de dezenove polegadas.
- Puta merda... Vou nem levar esses lixos, pra não envergonhar o setor bélico do país. Melhor irmos pra outra casa.

Chiquinho ficou com o seu videogame, diferente dos outros garotos da rua, que por serem mais abastados, tiveram seus renomados videogames confiscados.

Desde então, Chiquinho vinha sendo o magnata do entretenimento tecnológico, subjulgando todos os outros garotos da rua, e todos os adultos que vinham implorar para assistir novelas ou jogos de futebol, em sua casa.

Em pouco tempo, a fama de Chiquinho se espalhou, e muitas pessoas queriam ser como ele. Quando o Governo soube do garoto e de sua habilidade para impressionar a massa, logo tornaram-no ministro do lazer.

Como ministro, Chiquinho inspirou todos os homens e mulheres a lutarem para reaver a tecnologia, insuflando neles um sentimento de nacionalismo e força de vontade. Motivados, engrossaram o exército brasileiro, e tiveram grandes êxitos na guerra, sagrando-se vencedores.

Os Estados Unidos tornaram-se uma colônia brasileira, e Chiquinho a administrava. O país que outrora era chamado de "o mais poderoso" sucumbia diante de Chiquinho, assim como os garotos que um dia riram dele.

O Brasil tornou-se forte e respeitado, todos os outros países voltaram a fornecer tecnologia a ele. Nunca mais houve outra crise no país. Viva o Chiquinho, viva o Pleisteition!
 

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Geschichte: Mutiger João

Impressionado com a falta de coragem dos outros ali presentes, João tentou inspirá-los:

- Vamos, bebam! Este veneno de cobra é inofensivo. Vou provar.

Horas mais tarde, João havia morrido de complicações gástricas. Morreu acreditando no que havia dito, e não se deu conta de que havia morrido. Todos que o viram morrer tinham pesadelos, onde o morto dizia:

- Ainda com medo? Eu bebi e nada me aconteceu! Vamos, mostre coragem!

A coragem de João ignora até a morte, fazendo-o vagar eternamente pelos sonhos dos covardes, incentivando-os a destruirem seus próprios medos e incertezas. João só morreria quando a covardia também.
 

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Geschichte: Symbol des Fehlers

Cláudia... Sempre feminista.

- Eu não preciso de homem pra nada! Homem é a doença do mundo!

Empolgou-se desde adolescente, quando o professor de história narrava as conquistas obtidas pelas mulheres, ao longo dos tempos. Seu sonho era fazer algo grandioso pelas mulheres. Ela queria, de alguma forma, tornar a mulher um pouco menos independente dos homens. Um dos seus ditados preferidos era: "de grão em grão, a galinha enche o papo". Hoje, uma pequena liberdade. Amanhã, independência total da mulher. Sonhava até alto demais:

- Um jeito pelo qual as mulheres possam reproduzir-se sem o gameta masculino... Será possível? É capaz. Desse jeito, poderíamos curar a doença que infesta o mundo, deixando este planeta habitado pelos seres magníficos que somos nós, mulheres. Já pensou? Se eu fosse capaz disso, eu seria uma heroína para todas as mulheres da Terra. O tempo jamais apagaria minha imagem e o meu nome.

Queria ser reconhecida como a mais importante das feministas. No entanto, quem diria, sua jornada começou pela influência de um homem. Um homem, mesmo. Há sete anos, naquela sala de aula, quando ele contou as façanhas femininas. Isto era algo que incomodava muito Cláudia. Como ela poderia ostentar o título de a mais importante feminista, se só criou consciência do feminismo por causa do ensinamento de um homem? Segundo ela, as próprias mulheres deveriam tomar consciência do feminismo, elas próprias deveriam rebelar-se contra os homens. Do jeito que estava, Cláudia sentia-se seguindo as palavras de um homem, ao invés das suas próprias. Louca, procurou informações sobre o tal professor de história. Após alguns dias de pesquisa, descobriu que ele ainda ministrava aulas. Ótimo! Bastaria espioná-lo pelo colégio, a fim de descobrir a sua rotina. O professor morava em um bairro quase deserto, porém tranqüilo, o que deixava-o relaxado o suficiente para não preocupar-se demais com a segurança. Cláudia escondeu-se perto da casa do professor, a fim de pegá-lo quando o mesmo chegasse e descesse do carro. Empunhando um pequeno canivete, a mulher viu um par de luzes acesas vindo em direção à casa de sua futura vítima.

- É ele! Só mais um pouco!

O carro parou em frente ao portão. O motorista desceu e pegou as chaves da casa no bolso. Enquanto abria a porta, sentiu uma dor aguda nas costas.

- TE PEGUEI! Agora, você é meu!

O homem debateu-se e saiu dos braços que o envolviam. Viu uma mulher segurando um canivete ensanguentado. Tocou no local da dor e sentiu um furo. A lógica logo veio.

- Essa louca enfiou isso nas minhas costas! - pensou.

A mulher ria.

- Você deve ter gostado muito de me subjulgar, não é? Acha que preciso de você para perceber a inferioridade dos homens? Você não me ajudou em nada! EM NADA! EU PERCEBI TUDO SOZINHA! SOZINHA!
- Quem é você, sua louca?
- Não interessa! Eu vou te matar!
- Eu não vou deixar!

O homem avançou na mulher e lhe arrancou o canivete. Cláudia percebeu a diferença de força física que havia entre os sexos. Ele a imobilizou, ela se debatia. Ele cravava diversas vezes o canivete no tórax e no abdômem da mulher. Ela gritava, de ódio, de terror, de dor... E de arrependimento. Percebeu que os homens também tinham suas vantagens, e que não existe a prevalência de um único gênero, mas a cooperação dos dois. Nem homens, nem mulheres, poderiam ser líderes. Seria o equilíbrio dos dois que estabeleceria uma liderança natural, delegando cada tarefa ao sexo que melhor a cumprisse, assim gerando resultados positivos. O corpo sem vida de Cláudia, caído no chão, tornou-se importante no feminismo, como símbolo do erro cometido. Tanto o masculinismo quanto o feminismo são impuros.
 

sábado, fevereiro 03, 2007

Geschichte: Selbstmord

Roberto entrou no boteco e pôs a pasta executiva no balcão. Afrouxou a gravata, acomodando melhor a garganta para o grito que viria:

- JURANDIR! VEM CÁ, JURANDIR!

Sai de uma porta, atrás do balcão, um homem barrigudo e de camiseta branca e suja.

- Pois não, doutor! O que vai ser hoje?
- Hoje eu quero cerveja... Gelada. Me traz gelada, Jurandir! Não traz quente que vai piorar o meu humor!
- Tá saindo, doutor.

Roberto era advogado, dos bons. Pensava em como tinha adquirido aquele dom, aquela maestria. Perguntou ao destino por que tinha justo esse que ser o seu dom. Lembrou que, na juventude, queria ser anarquista. Hoje em dia, era contratado pelos mais ricos burgueses para defendê-los contra acusações justas, de crimes que eles cometeram. O homem que um dia viu-se como Robin Hood, agora via-se como o oposto. Talvez seja por isso que gostava de frequentar aquele precário boteco. Tinha muito bem status e dinheiro para frequentar os mais chiques bares, mas aquele boteco... Não sei bem explicar... Talvez trouxesse uma parte humilde que há muito se perdeu em Roberto. O boteco trazia boas lembranças, dos velhos tempos... Os velhos sonhos... Em bares chiques, só seria lembrança a vida atual de Roberto, a vida que ele sempre repudiou.

- Tá aqui a cerveja, doutor!
- Obrigado, Jurandir.

E foi bebendo... E pensando. Após algum tempo, acabou o conteúdo da garrafa.

- Me vê outra cerveja, Jurandir!

O tempo passava e Roberto bebia. Foram duas, três, quatro garrafas... Depois, a quinta, a sexta, a sétima... E fez um intervalo. Pegou a pasta e a abriu. Leu o papel que recebera, à tarde, no consultório médico.

- Cirrose... Veio bem a calhar.

Roberto começou a passar mal.

- Está fazendo efeito... Só mais um pouco...

Roberto vomitou. Também sentiu a respiração enfraquecer. Aproveitou os últimos segundos como matemático.

- Sete garrafas... Dois Reais cada uma... Catorze Reais, no total.

Abriu a carteira e tirou uma nota de vinte. Pôs no balcão. Deu o último grito:

- JURANDIR! TÔ INDO! DEIXEI O DINHEIRO NO BALCÃO! FICA COM O TROCO!

Terminou o grito e caiu duro no chão. Jurandir apareceu e sacudiu Roberto:

- Levanta, doutor! Não fica bem um advogado como o senhor dormindo em boteco.

E o corpo não respondia.

- Doutor? O senhor tá legal?

Chamaram os paramédicos, mas logo que estes chegaram, viram ser melhor chamar a polícia também. Mais um caso de morte em bar.

- Não foi homicídio, foi suicídio. Tomem nota!
- Eu já ouvi falar desse homem... Era advogado de sucesso. O que leva alguém assim a se suicidar?
- Não faz sentido, mesmo. Devia ser louco, esse sujeito.

E o cadáver foi levado ao necrotério, taxado de louco. Foi a melhor definição dada por homens que não entendiam o amor aos ideais, aos sonhos. A definição de homens que nada sentem, que nada pensam, que não são tristes, nem felizes... São os homens modernos. Roberto retirou-se dessa vida frustrada para tentar novamente. Era melhor do que conviver com a vergonha de trair sua própria personalidade.