Geschichte: Langsam leben
Rogério levava bronca do chefe:
- Olha pro relógio, porra! Tá vendo que horas são? Oito e quinze! Era pra tu estares aqui às oito!
- Eu sei, chefe, mas é que eu venho de bicicleta e, às vezes, me atraso.
- Não quero nem saber! Se atrasar mais uma vez, é demitido! E vê se traz um perfume contigo! Tu chegas fedendo pra caralho e não quero mau cheiro aqui na repartição!
Rogério trabalhou cabisbaixo, naquele dia. Sempre pensou que um carro resolveria seus problemas: Não chegaria mais atrasado, não chegaria suado e mal-cheiroso, nem mais seria humilhado pelo chefe, na frente dos colegas de trabalho.
A partir daquele dia, Rogério começou a acordar mais cedo, para evitar atrasar-se por não ter um carro. Ia para o trabalho sempre maldizendo a bicicleta.
- Que sono... Se eu tivesse um carro, poderia acordar bem mais tarde... Mas só tenho essa maldita bicicleta!
Chegava no trabalho, abria uma mochila que trazia nas costas e tirava uma camisa limpa e perfumada.
- Ai, meu Deus... O que eu tenho que aguentar por causa dessa bicicleta!
Assim reclamava Rogério, diariamente. Os anos foram passando, o assunto na repartição passou a ser sobre doenças.
- O médico disse que tenho isto porque sou ocioso.
- Comigo não é diferente... Esse ócio tá me enchendo de doenças.
Rogério ouvia a conversa dos colegas e percebeu que somente ele estava em ótima saúde. Enquanto todos os outros tinham um carro, ele tinha uma bicicleta. O pedalar diário havia trazido boa forma e resistência para o seu corpo. Desde então, Rogério passou a ser o mais ativo e vigoroso da repartição. Os outros, doentes, ficavam pra trás, enquanto ele rapidamente se destacava na empresa. Não demorou muito para ser promovido. Com a promoção, o aumento de salário. Com o aumento de salário, o velho sonho.
- Finalmente, vou poder comprar um carro!
E assim Rogério fez. Comprou um carro bonito, de marca boa. Na primeira ida motorizada ao trabalho, o homem deparou-se com algo que não havia na ciclovia em que costumava pedalar: Um caminhão ultrapassando o sinal vermelho da esquina e indo em sua direção. Rogério tentou desviar, mas não conseguiu. Seu carro parou embaixo do caminhão, e começou a pegar fogo.
Os paramédicos chegaram:
- João, me traz o extintor, rápido!
- Como é que ele tá?
- Não sei! Vou ver agora.
- Meu Deus!
- Vai dar trabalho pra perícia... O corpo está irreconhecível.
- De qualquer maneira, também é um ser humano... Vamos tirar ele daí.
Os dois tiraram o corpo que outrora abrigou a alma de Rogério, e logo cobribram com um grosso lençol branco, a fim de evitar a visão da população curiosa que logo se amontoou por ali.
Rogério ultrapassou a vida tão rápido quanto um carro ultrapassaria uma bicicleta... E esse foi o seu erro.


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