sábado, fevereiro 03, 2007

Geschichte: Selbstmord

Roberto entrou no boteco e pôs a pasta executiva no balcão. Afrouxou a gravata, acomodando melhor a garganta para o grito que viria:

- JURANDIR! VEM CÁ, JURANDIR!

Sai de uma porta, atrás do balcão, um homem barrigudo e de camiseta branca e suja.

- Pois não, doutor! O que vai ser hoje?
- Hoje eu quero cerveja... Gelada. Me traz gelada, Jurandir! Não traz quente que vai piorar o meu humor!
- Tá saindo, doutor.

Roberto era advogado, dos bons. Pensava em como tinha adquirido aquele dom, aquela maestria. Perguntou ao destino por que tinha justo esse que ser o seu dom. Lembrou que, na juventude, queria ser anarquista. Hoje em dia, era contratado pelos mais ricos burgueses para defendê-los contra acusações justas, de crimes que eles cometeram. O homem que um dia viu-se como Robin Hood, agora via-se como o oposto. Talvez seja por isso que gostava de frequentar aquele precário boteco. Tinha muito bem status e dinheiro para frequentar os mais chiques bares, mas aquele boteco... Não sei bem explicar... Talvez trouxesse uma parte humilde que há muito se perdeu em Roberto. O boteco trazia boas lembranças, dos velhos tempos... Os velhos sonhos... Em bares chiques, só seria lembrança a vida atual de Roberto, a vida que ele sempre repudiou.

- Tá aqui a cerveja, doutor!
- Obrigado, Jurandir.

E foi bebendo... E pensando. Após algum tempo, acabou o conteúdo da garrafa.

- Me vê outra cerveja, Jurandir!

O tempo passava e Roberto bebia. Foram duas, três, quatro garrafas... Depois, a quinta, a sexta, a sétima... E fez um intervalo. Pegou a pasta e a abriu. Leu o papel que recebera, à tarde, no consultório médico.

- Cirrose... Veio bem a calhar.

Roberto começou a passar mal.

- Está fazendo efeito... Só mais um pouco...

Roberto vomitou. Também sentiu a respiração enfraquecer. Aproveitou os últimos segundos como matemático.

- Sete garrafas... Dois Reais cada uma... Catorze Reais, no total.

Abriu a carteira e tirou uma nota de vinte. Pôs no balcão. Deu o último grito:

- JURANDIR! TÔ INDO! DEIXEI O DINHEIRO NO BALCÃO! FICA COM O TROCO!

Terminou o grito e caiu duro no chão. Jurandir apareceu e sacudiu Roberto:

- Levanta, doutor! Não fica bem um advogado como o senhor dormindo em boteco.

E o corpo não respondia.

- Doutor? O senhor tá legal?

Chamaram os paramédicos, mas logo que estes chegaram, viram ser melhor chamar a polícia também. Mais um caso de morte em bar.

- Não foi homicídio, foi suicídio. Tomem nota!
- Eu já ouvi falar desse homem... Era advogado de sucesso. O que leva alguém assim a se suicidar?
- Não faz sentido, mesmo. Devia ser louco, esse sujeito.

E o cadáver foi levado ao necrotério, taxado de louco. Foi a melhor definição dada por homens que não entendiam o amor aos ideais, aos sonhos. A definição de homens que nada sentem, que nada pensam, que não são tristes, nem felizes... São os homens modernos. Roberto retirou-se dessa vida frustrada para tentar novamente. Era melhor do que conviver com a vergonha de trair sua própria personalidade.