segunda-feira, março 26, 2007

Geschichte: Reflexion

Maurinho tentava efetuar as compras da época de São João.

- E aí, tio? Vai vender ou não?
- Tu és de menor, Maurinho. E mais... Se descobrem que sou eu quem te vendo, pra tu fazeres as merdas que tu costumas fazer, vou ficar com problemas.
- Pô, qual é? Eu não conto pra ninguém. E ainda pago o preço que o senhor pedir. Bombinha é fraca, não dá. Quero essas aí que só é vendida pros mais velhos.

Pensando na grana, o vendedor cede.

- Três Reais cada uma. Vais pagar?
- Vou, claro!
- Seguinte, mas faz tuas maldades pra lá. Não quero moleque decepado por bomba aqui perto. Vai dar bandeira.
- Pode deixar.

Maurinho compra três bombas de São João. Paga dez Reais ao vendedor, pega o troco e vai embora. Passou pela banca de revistas e decidiu comprar dois pacotinhos de figurinhas para o seu álbum, com o troco que tinha sobrado. Voltou pra casa, e enquanto esperava um certo garoto passar pela rua, decidiu colar as figurinhas no álbum, para passar o tempo. Pegou o tubo de cola, derramava um pingo no dedo indicador direito e com ele espalhava o líquido no verso da figurinha, para então colá-la no álbum. Quando estava colando a quarta figurinha, viu um menino na rua.

- Jeremias! És tu mesmo, filho da puta! Tá se achando com o seu videogame novo, né? Eu não posso ter um videogame assim, mas posso punir quem pode ter. - cochichou consigo mesmo.

Abriu o portão de casa, tirou duas bombas do bolso e rapidamente as acendeu com um isqueiro que havia roubado do pai.

- Ei, Jeremias! Olha só o que tenho pra ti!

E arremessou as duas bombas. Descuido de Maurinho, que as havia arremessado com a mão direita. A cola que havia em sua mão limitou bastante a força do arremesso, fazendo com que as bombas apenas caíssem da mão e parassem perto dos pés de Maurinho. Isto, o garoto só percebeu depois da explosão.

Os pés de Maurinho ficaram em péssimo estado, tendo que ser amputados. O garoto não mais podia andar sem o auxílio de sua cadeira de rodas, não podia mais jogar futebol, nem brincar de pega-pega, como todos os garotos da rua. Ainda por cima, toda vez que Jeremias o encontrava, acabava perguntando: "E aí, Maurinho! Como andas?".

A inveja e maldade de Maurinho finalmente trouxeram a sua punição e humilhação.
 

sexta-feira, março 23, 2007

Schand

Existem pessoas que colocam um texto qualquer em seu blog, um texto pequeno, sem graça e inútil, só para ter o que atualizar, no blog.

Eu jamais faria isso.
 

quarta-feira, março 21, 2007

Geschichte: Glauben der Energie

Estava uma turma reunida para jogar futebol. Já adultos, todos acima dos vinte anos de idade. Esperavam o último integrante para começar o jogo. Enquanto isso, fofocavam sobre sua excentricidade.

- Pois é... O Sandro virou esse tal de "vegetariano".
- Nem só isso. Ele tá com umas idéias estranhas na cabeça. Além de parar de comer carne, inventou de conversar com as plantas e sentir a energia delas. Se não me engano, o nome disso é "zen"... Alguma coisa assim.
- Esse cara é foda, mesmo.

E, enfim, chega o Sandro. O pessoal repara que ele está descalço.

- Sandro, cadê as chuteiras?
- Não uso.
- Como não, Sandro? Vais ficar sem proteção para os pés?
- O que é isso, turma? Me deixem. Eu gosto de sentir a energia da terra em meus pés.
- Acho que não entendemos, Sandro.
- É simples. A terra é a origem da vida, tudo vem dela. As plantas, os alimentos... A gente sobrevive graças à terra.
- Sabemos. Olha, Sandro... Não seria melhor se tu abdicasses dessa idéia de... "zen"?
- Já disse, pessoal. Eu sou feliz assim. Nunca fui tão feliz em toda a minha vida.
- Tá certo. Vamos começar logo o jogo e ver se esquecemos essa história.

Prepararam-se para jogar no velho campinho.

- Era mais bonito, antigamente. Não faltava cuidado com a grama e ninguém jogava lixo, aqui.
- É só afastar essas tralhas pra lateral.

Fizeram uma rápida limpeza no campinho e começaram o jogo. Correu tudo bem até próximo dos vinte minutos, quando Sandro grita.

- Ai, ai... Diacho!
- Que foi?
- Meu pé!
- O que houve?
- Pisei num prego.
- Porra... Acho que não vimos esse prego, na hora de tirar o lixo. Ainda dá pra jogar, Sandro?
- Acho que não. Tá doendo muito.
- Jogar sem ti não vai ser o mesmo, cara.
- Podem jogar. Sem problemas.
- Não. Tu és estranho, mas é nosso amigo. Vamos parar.

A turma ajudou Sandro a se levantar e levaram-no em casa.

- Vais ficar bem?
- Vou. Foi só um furo. Depois pára de doer.
- Tá certo. A gente já vai, então. Te cuida.
- Pode deixar.

Dias depois, Sandro estava no hospital, agonizando. O médico sabia que o caso já estava avançado demais, para uma salvação. Deu a notícia aos amigos que foram visitar Sandro.

- É um caso grave de tétano. Chances de cura só são possíveis caso haja um milagre, infelizmente.

Os amigos começaram a chorar. Não sabiam se contavam ou não a Sandro. De qualquer maneira, não deu tempo. Algumas horas depois, ele morreu. Houve o velório, e no dia seguinte, o enterro. Se as palavras ditas por ele forem verdade, Sandro deve estar muito feliz, agora, cercado de energia da terra por todos os lados.
 

quinta-feira, março 15, 2007

Geschichte: Gefährliche Natur

A piaba já estava marcada de morrer pela piranha. Todo dia era observada pela sua predadora.

- Dá bobeira, piaba! Dá bobeira que eu te pego!

Mas a piaba era esperta, sempre conseguia fugir e despistar a piranha. Assim foi por dias, semanas, meses. Chegou a um ponto em que a predadora parou de perseguir a presa. A vida da piaba voltou ao normal. Agora, nadava livremente, sem preocupações. Cilada. A piranha queria apenas deixá-la desatenta, desprecavida.

Foi num passeio matinal que a piaba estava desatenta, nem percebeu quando a piranha veio por trás.

- Pensou que era mais esperta? Agora, você será o meu almoço!

E o peixe foi engolido. Não, não. Não foi a piaba, foi a piranha. Também desatenta, nem percebeu quando um jacaré a atacou pelas costas.

É sempre bom lembrar o quanto a natureza pode ser traiçoeira.
 

sexta-feira, março 09, 2007

Geschichte: Das vieldeutige

Osmar era filho de pacisfista. Seu pai sempre fora fã de Gandhi, e acreditava que as pessoas deveriam protestar contra as coisas erradas, mas sem um mínimo violência sequer. O protesto pacífico, segundo ele, era uma forma de resolver problemas com inteligência e bom senso, ao invés de utilizar a agressividade, algo que ele abominava. Morreu acreditando seguindo esse caminho, e o mesmo caminho Osmar escolheu. Sempre admirou o pai, suas idéias e sua perseverança. Queria ser como o seu progenitor.

Osmar foi crescendo e tornando-se cada vez mais um pacifista, mas nunca julgou-se aos pés do pai. Por isso, preocupava-se constantemente em participar de alguma manifestação política que não houvesse violência, além de disseminar a paz nas idéias e ideologias das pessoas. Osmar, com tanta atuação ativista e pacífica, havia tornado-se melhor que o pai. Todos percebiam, menos o próprio Osmar.

Visando tornar-se melhor, envolvia-se até nas mais minúsculas brigas. Seja um casal discutindo, ou uma dona-de-casa enxotando um cachorro para fora da cozinha. Lá estava Osmar, para pregar a paz e o amor ao próximo. A partir daí, os que moravam próximos a Osmar começaram a evitá-lo. O viam como alguém incoveniente, e para impedir que ele voltasse a incomodá-los, pararam com suas brigas. A rua ficou pacífica demais. A falta de confusões começou a incomodar Osmar, que não tinha mais como exercer sua função. Passou a procurar incessantemente uma briga, pela cidade. Encontrou em um bar. Um sujeito ameaçava outro, munido de um gargalo de garrafa cortado.

- Trapaceou na sinuca, né, filho da puta? Pensa que num vi tua mão empurrando a bola pra caçapa?
- Num fui eu, Josimar! Tu tás doido de cachaça! Tu viste coisas!
- Vai mentir pra outro, seu safado!

Osmar logo interferiu.

- Calma, calma! Não vamos brigar. Se discutirmos civilizadamente, será possível resolver as diferenças sem violência.
- Olha, o senhor me desculpe, mas a briga aqui é nossa.

Ignorando Osmar, Josimar parte para cima de seu desafeto e lhe acerta um soco no rosto.

- Parem a briga! Parem a briga! Isso não leva a lugar algum!

Josimar nem ouvia, continuava batendo no outro.

- Parem! Já disse! Parem!

Continuaram.

- Já chega!

Osmar tomou o gargalo da mão de Josimar, e enterrou na garganta dele. Tirou e enterrou novamente. O sangue espirrava em grande quantidade, e todos que viram a cena sabiam que era tarde para Josimar. Osmar, então, levantou-se e gritou:

- Odeio pessoas violentas, odeio a violência! Os violentos devem morrer!

E esta foi a história de Osmar, assim como a de muitos outros pacifistas.
 

quarta-feira, março 07, 2007

Tribut-Geschichte: Der Grill

Prelúdio: Este conto é uma homenagem ao meu inexorável amigo Roberto Mister. Que foge de sua própria essência ao demonstrar caridade e postar inúmeros comentários, neste humilde blog. Que o espírito dúbio de Roberto perdure por muitos anos. Amém.

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Roberto acordou cedo, no sábado. Tinha que ir a uma confraternização, um churrasco entre amigos. Preparava-se para partir, quando lembrou do que o organizador havia dito: "Pessoal, tem que levar dez Reais para fazermos uma coleta e comprarmos carne".

- Que se foda! Eu vou assim mesmo!

Roberto pegou um ônibus e chegou em um bonito sítio.

- É aqui. Vou fingir naturalidade e ninguém vai perceber que não colaborei com quantia nenhuma.

Logo na entrada do sítio, o rapaz é impedido de prosseguir por um negão alto e forte.

- Qual o seu nome, garoto?
- Roberto. E qual o teu? Ninguém me falou que teria alguém vigiando a entrada. O que estás fazendo aqui? Tens autorização pra estar aqui?
- Me chamam de Pé-de-Mesa. Fui contratado para a segurança e outras coisas.
- Que outras coisas?
- Não tenho permissão para contar.
- Sei. Deixa eu passar, agora.
- Não posso. Na lista que tenho não consta que você contribuiu com o dinheiro da coleta. Só entra se pagar.
- Olha... Dinheiro eu não tenho. Será que eu poderia pagar com essa brilhante e afiada faca?

Roberto tira uma enorme faca de sua mochila, e esfaqueia Pé-de-Mesa diversas vezes.

- Desgraçado. Isto é para aprender a me respeitar.

Entrou no sítio e logo encontrou seus amigos, que cochichavam entre si.

- O Roberto aqui?!
- Mas ele não pagou a coleta.
- Por que o Pé-de-Mesa deixou ele entrar?
- Alguém vai lá e toma uma atitude!
- Eu não vou deixar ele comer e beber com o meu dinheiro!

Um dos amigos dirigiu-se a Roberto.

- Oi, Roberto. Tudo bom?
- É... Tudo. Por que o pessoal tá me olhando estranho?
- É que você não pagou a coleta... Todo mundo pagou. Nós havíamos combinado que somente os pagantes poderiam participar da festa.
- Ora, nunca é tarde para uma mudança de planos, não é?
- Na verdade, é tarde, sim. Sinto muito, Roberto... Vamos ter que pedir para você se retirar.
- Calma, vamos conversar. Sou muito bom em argumentos. Meus argumentos são afiados, e convencem qualquer um. Gostarias de ver?
- Hã? Por que você está tirando essa faca da mochila, Roberto?

Vinte minutos depois, ninguém mais reclamava que Roberto não havia pago o dinheiro da coleta, nem que ele poderia estar comendo e bebendo à custa dos outros. As intrigas foram solucionadas. Agora, Roberto encontrava-se degustando um prato com alcatra.

- Que carne de má qualidade. Essa alcatra está mais difícil de cortar que a carne de vocês. Não concordam, pessoal?

Ninguém respondeu. Tudo estava silêncio, e não havia animação alguma na festa.

- Tédio. Melhor voltar pra casa.

Roberto pega três garrafas de vodka que estavam por ali e bota em sua mochila. Antes de sair do sítio, dá mais uma olhada panorâmica no ambiente e em sua quietude.

- É... Próxima vez, eu deixo um ou dois vivos. Só pra ter com quem conversar.
 

segunda-feira, março 05, 2007

Geschichte: Mangel an Glück

Denilson queria ser doutor na vida, mas ninguém dava apoio.

- Tá louco, moleque? A gente é pobre, e pobre nasce e morre na merda.
- O senhor tá errado, pai. Eu vou virar doutor.
- Vai nada! Ouve o que eu tô te falando!
- Você vai ver, pai! Vou fazer você engolir essas palavras!
- Já disse uma vez, e vou dizer de novo: No máximo, você vira pedreiro... E olhe lá!

Denilson ficou furioso. Com muita garra e força de vontade, passou a estudar horas por dia, e logo tornou-se o melhor aluno de sua escola. Anos depois, foi aprovado no vestibular. Posteriormente, concluiu a faculdade, obteve o diploma. Mas era tarde. O mercado de trabalho estava muito concorrido. O único emprego que Denilson achou foi como pedreiro, numa construção decadente. Passou ali o resto de sua vida, chorando e lembrando das palavras do pai. Quando a construção ficou pronta, pulou do último andar e pôs um fim à sua sina.

Afinal de contas, o que é o estudo, sem a sorte?
 

sexta-feira, março 02, 2007

Geschichte: Geisteskranke Liebe

Leandro era botânico autodidata, nunca cursou uma faculdade, nem escola referente à botânica. Ele dizia que somente com "amor às plantas" era possível entendê-las por completo, e, por isso, repugnava aqueles que só tinham conhecimento adquirido por livros e aulas. Para ele, eram pessoas que só usavam as plantas a fim de fazer carreira, a fim de enriquecer às custas delas.

- Mas eu não sou assim, como eles... Eu amo vocês. Logo, eu vou voltar... Não se preocupem. - dizia Leandro, enquanto abraçava e beijava as várias plantas no quintal de sua casa.

O homem pegou uma mochila e saiu de casa. Foi ao cais do porto, onde o barco lhe esperava.

- Leandro, não estrague essa viagem com esse seu "amor" pelas plantas. Vem um pessoal universitário conosco. Dê a eles liberdade de estudo.
- Nem prometo nada, Miguel... Mas já vou avisando: Se eles machucarem as plantas, não sairá barato.
- Leandro, te controla! Pareces um louco! Porra! Deixa o pessoal fazer a pesquisa! A gente vai ganhar bem por isso, será que não entendes?
- Está bem, está bem! Vou tentar me controlar! Agora, pára de ficar me irritando! Espero que esses sujeitinhos paguem bem, mesmo.
- E vão pagar, Leandro... Já disse que vão.

Um grupo de cinco universitários logo chegou, e o barco partiu com eles, Leandro e Miguel.

Durante a viagem, o grupo de alunos discutia o planejamento do estudo, quando um deles virou-se para Leandro e perguntou:

- Senhor Leandro, ouvi dizer que você é exímio em botânica. Você poderia nos ajudar com nosso planejamento?
- Ajudar... Vocês?
- Sim.
- Vão para o inferno, bando de sanguessugas! Acham bonito o que fazem? Querem ganhar dinheiro às custas das plantas? Querem ganhar fama usando elas? Acham que elas não têm sentimentos? Vermes como vocês deveriam morrer lenta e doloramente! - gritou.

Atraído pelo barulho dos gritos, Miguel aparece.

- Porra, Leandro! Não me disseste que ias te controlar? Já disse pra ficar quieto! A gente já tá chegando, não estraga tudo!

Alguns minutos depois, o barco chega a uma ilha repleta de plantas exóticas. Depois de alguma andança, o grupo de estudantes chega a uma planta estranha e espinhosa.

- Será que essa é...
- Sim! É como está nos livros! Uma das plantas mais venenosas da face da Terra!
- Vamos tirar alguns espinhos dela. É onde está guardado o veneno. Precisamos saber a composição dele.

Leandro vê de longe os universitários tirando os espinhos da planta.

- Desgraçados! Não machuquem a Anastácia! - berrou.

Correu até eles, sacou o punhal do bolso e desferiu incontáveis punhaladas nos estudantes, até que todos estivessem imóveis e ensanguentados, no chão. Depois, correu em direção à planta e lhe deu um longo abraço.

- Pronto, querida. Ninguém mais vai te machucar. Já passou, já passou.

Foi quando percebeu que havia sido ferido pelos espinhos, com o abraço. O veneno já corria livre, pelo corpo de Leandro. Ele começou a ficar roxo e sentir a respiração indo embora. Enquanto agonizava, olhou para a planta e disse:

- Não se preocupe, amor. Eu sei que não foi culpa sua.

Depois destas palavras, fechou os olhos.

Morreu amando as plantas, mas será que esse amor foi retribuido? Não importa. Agora, o amor doentio de Leandro já havia tragado-o para as entranhas da terra, de onde as plantas sugam nutrientes para crescer. E foi este o seu último ato de sacrifício por elas.