segunda-feira, abril 30, 2007

Geschichte: Einziehen der Nahrung

Gonçalves era vegetariano, daqueles fanáticos. Só comia alimentos oriundos de plantas, nada vindo de animais ou derivados deles. Deixou de andar com todos os seus amigos, pois eles comiam carne. Queria ser amigo apenas da natureza. Para tal, comprou uma fazenda. Perto dos animais que ele tanto ama, sem utilizá-los para sua própria alimentação. Um ato egoísta, segundo Gonçalves. Alimentava-se apenas de plantas, e como se alimentava! Comia bastante, talvez para suprir a necessidade que uma carne bem-passada deixa no estômago. Muitos vegetais já passaram pelo sistema digestivo de Gonçalves. Quem sabe, amigo da natureza, dos animais... mas inimigo das plantas comestíveis. "Planta não tem cérebro. É morte sem dor. Entra no meu estômago sem reclamar. Aposto que ela nem se importa."

Dia desses, Gonçalves quis passear, pela fazenda. Compra recente, ainda não a conhecia por completo. Também não conhecia um barranco, bem perto de onde ele andava. Destraído, nem viu... Caiu. Queda de mau jeito é complicada, sempre põe em comprometimento uma parte do corpo. Dessa vez, foi o pescoço. Um belo torção. O corpo humano até que é resistente, mas, a partir de certo ponto, passa a ceder. E assim foi. Estava lá o homem, caído, inconsciente, sozinho. Sem ajuda médica, logo ele morreu. Ficou lá, esquecido, decompondo-se. Acabou que os seus restos mortais serviram de adubo para a natureza. Foi comido por aquelas que comia, e muitas plantas cresceram saudáveis, ao redor de Gonçalves, tendo como refeição o corpo do defunto. Foi morte sem dor, entrou pelas raízes das plantas sem reclamar, e aposto que ele nem se importou. Tem dia que os papéis se invertem, mesmo.
 

quinta-feira, abril 05, 2007

Geschichte: Sehen zum Glauben

O amigo contava a Tião:

- E pra chegar em casa, foi sofrido. Peguei o ônibus e tava tão lotado que pensei que eu ia morrer espremido.
- Verdade?
- Verdade!
- Não sei... Só acredito vendo.
- Ô, Tião! Por que eu iria mentir pra ti?
- Não sei... Mas só acredito vendo.

Não era a primeira vez que Tião fazia isso. Todos os amigos dele já estavam cansados desse "só acredito vendo, só acredito vendo". Um desses amigos foi avisar.

- Tião, pára com esse negócio de duvidar de tudo a gente diz! Esse "só acredito vendo" irrita!
- Eu duvido de vocês?
- Duvida! E muito!
- Só acredito vendo.
- Ah, Tião! Desisto!

E parece que Tião não ia mudar, mesmo. Até que a vida pregou uma peça nele: Uma infecção nos olhos. Ignorante em relação à doenças, Tião deixou quieto, nem ao médico foi. A infecção foi piorando.

- Vai no médico, Tião! Olha só como tá esse negócio! Tu vais acabar ficando cego.
- Só acredito vendo.

E aconteceu conforme disseram: Tião ficou cego.

- Eu não te avisei? Taí! Ficaste cego!
- Só acredito vendo.
- Mas, rapaz... Tu não estas vendo nada! Não vais mais enxergar nada!
- Então! Só acredito vendo.

Tião não viu mais nada, não acreditou em mais nada. Anos depois, adoeceu grave e nem a sua própria morte viu.

Até hoje, quem mora na vizinhança onde Tião morava, costuma ver uma visagem que vaga pela noite. Chamaram até um padre, a fim de aquietar o espírito:

- Pobre alma, siga para a luz, para o descanso eterno. Estás morto.
- Eu, morto, seu padre? Só acredito vendo.
 

domingo, abril 01, 2007

Leben das Leben

O pessoal lá da faculdade manda estudar, fazer sei lá quantas especializações, mestrado, doutorado... E como vagabundo, fico puto com isso. Tento perguntar a lógica disso tudo, e todas as respostas que recebo têm, essencialmente, a ver com a dupla "dinheiro & status". Não necessariamente os dois ao mesmo tempo, mas pelo menos um deles. Então, eu contesto eles. Digo algo como: "Mas se eu ficar a vida toda trabalhando, quando eu vou aproveitar?". Eles me respondem que é na aposentadoria, depois de trinta longos anos trabalhando feito um condenado. Eu poderia dizer que muitos nem chegam na aposentadoria, morrem enquanto "burros de carga", mesmo. Foram pro túmulo com a falsa esperança de que desfrutariam do dinheiro e status que acumularam por anos. Mas não é deles que quero falar, embora também sejam importantes, nessa linha de raciocínio que estou moldando. O que eu quero falar é de quem chega na aposentadoria. Falo de meus avós, avós de meus amigos e todos os outros idosos que eu conheço. Todos se queixam de doenças, dores, arrependimentos do passado e uma solidão que o dinheiro não pode curar. Fico pensando no vovô Fulano, aquele doutor grão-mestre em física nuclear, sendo agora um velho com incontinência urinária, passando entediado o resto de sua vida, em seu luxuoso apartamento, pensando em quantas coisas poderia ter feito, enquanto jovem. Isto é, se ele for rico. Se não for rico, nem vai ter tempo pra pensar em outra coisa que não seja o custo com a saúde. O corpo humano vai enfraquecendo, conforme a velhice chega. É de se esperar que os idosos gastem muito com remédios. Falo pelos meus avós. Nenhum deles têm uma doença mortal, mas têm várias pequenas doenças cujo tratamento médico custa uma boa fatia do dinheiro que eles acumularam por toda a vida. A partir disso, cria-se a revolta: "Porra, passei minha juventude toda trabalhando pra ficar mofando numa cama e tomando um monte de remédios?". Alguns ainda trabalham. Dizem que é "amor à profissão", mas parece ser "amor à única coisa que têm na vida". Conheço alguns poucos idosos que estão melhores. Ainda se queixam de doenças e outras peculiaridades dessa idade, mas estruturaram a vida de uma maneira mais inteligente. Ao invés de dedicarem a vida toda ao trabalho, souberam dividir o tempo. O trabalho era uma coisa secundária. Em primeiro lugar, vinha a família, a união entre eles, o amor. Aproveitavam a vida, se divertiam, e o trabalho era só um método de obtenção de dinheiro. Trabalhavam o tanto que precisava, não trabalhariam mais tempo por uma renda extra. Tinham tudo o que precisavam. Acabou que esses velhos, hoje em dia, têm a família ao lado deles, não se queixam de solidão, e não ficam dizendo "ah, se eu tivesse tempo quando era jovem". Gastam com os seus remédios, mas o lado psicológico deles parece tão em ordem que até as doenças vêm em menor frequência.

Deve ser isso que a lógica capitalista gosta. Enaltecer o dinheiro além da conta, fazendo com que as pessoas se tornem escravas dele. Não, escravas não. Talvez viciadas. Dizem que os viciados químicos precisam da droga só porque o cérebro está também está viciado. Talvez ocorra o mesmo com o dinheiro. O sujeito nem precisa de mais dinheiro do que já tem, mas continua atrás, gosta de ver a quantia crescer. Com o dinheiro extra, ele não faz nada de útil. Ou compra futilidades ou deixa lá, guardado em um banco monetário. Desse modo, acho que a pessoa fica maluca, carente, necessitando de amor. Aí entra o egocentrismo do status. Acha que sendo doutor ou mestre está causando a maior sensação nos outros, acha que está sendo admirado ou invejado. Quem sabe seja um mecanismo da personalidade deles para acharem-se queridos ou importantes. Uma forma ilusória de esconder o que eles realmente são. O capitalismo difunde essas idéias, e ensina os outros a difundirem. As pessoas são convencidas de que precisam disso, de que esse é o modo pra se viver. E são convencidas a convencerem os outros. Dá nisso.

Enfim, não quero passar minha vida toda trabalhando e fazendo mestrado, doutorado ou seja lá o que for. Vou me formar, procurar um empreguito e ver se faço algo útil na vida, como formar uma família e me tornar uma pessoa melhor. Talvez eu visite mais meus amigos, me divirta mais, seja mais cortês com as pessoas e pare de cultivar ódio em meu coração. Se eu chegar à velhice, e mesmo se eu não chegar, saberei que fiz mais do que inutilidades, mais do que avareza e egocentrismo. Saberei que vivi a vida de um modo feliz. Tomara que eu consiga.