segunda-feira, julho 23, 2007

Conto: Maldição cultural

Mal chegou ao banco para fazer um depósito, Toshiro logo sentiu vontade de urinar. Entrou no banheiro do estabelecimento, fez o que tinha de fazer e lavou as mãos. Quando voltou, viu que havia algo diferente. Um bando de assaltantes rendiam os atendentes do local, e exigiam que lhes passassem toda a quantia monetária dali. Nervoso com a prática do golpe, o líder dos meliantes avistou Toshiro.

- Não deixem o japonês agir! O kung fu dele pode ser mortal!

Toshiro foi alvejado com 18 tiros. Os assaltantes fugiram. Parentes relatavam que a vítima não tinha forças para bater nem no irmão menor, de 12 anos. Toshiro foi morto por carregar a maldição de seu povo, um estereótipo maldito.
 

sábado, julho 21, 2007

Conto: A dialética

William olhava seu Rolex, em plena rua deserta, quando, de súbito, algúem lhe pergunta.

- Que horas são?
- Hã... Nove e meia.

O sujeito tira um revólver da calça.

- Certo. Agora, me passa o Rolex.

Calmamente, William responde.

- Se tu ias me roubar, por que não deixaste para olhar as horas tu mesmo?

Envergonhado pela sua ignorância, o ladrão atira contra sua própria cabeça, suicidando-se. Foi mais uma vítima da dialética impecável de William.
 

quinta-feira, julho 19, 2007

Conto-homenagem: O mafioso

A irmã adoeceu. Ele olhou para o sofrimento do irmão menor, com o ocorrido. Sabia que se quisesse sobreviver em Curitiba, teria que juntar-se aos maldosos.

- Por que quer se juntar a nós?
- Minha irmã pequena está doente. Preciso de dinheiro pros remédios. Tenho pouco a perder, então não me interessa como eu consigo a grana.
- Se eu tivesse um pouco de sentimentalismo, eu apreciaria o seu sacrifício pela sua irmã... Mas não me interessa, o importante é mais um membro na família. Mas somos uma família unida, e Dom Juarez castiga severamente os seus filhos rebeldes.
- Como?
- Dom Juarez veio Paraguay, e há alguns anos iniciou sua família aqui. Ele é o nosso pai, e será o seu também. Desobedeça-o e pagará com a vida.
- Não tô aqui pra trair ninguém. Só quero um trabalho pra arrumar dinheiro.
- Vens de onde?

Ele não queria dar informações de onde realmente veio.

- Vim de Curitiba, mesmo. Nasci neste inferno.
- Então, já deve estar acostumado. Força bruta ou agilidade?
- Me saio bem com os dois.
- Potencial tanto para ladrão como para assassino.
- O que você quiser.
- Apenas me mostre uma ação que me convença.

Naquela mesma noite, ele matou dois antigos desafetos de Dom Juarez, o que chamou a atenção de todos da família para o novato.

- Parabéns! Até o pai quer falar com você. Ele parece satisfeito.

O novato entra na sala chique e bem-arrumada. Vários homens armados ali. Numa cadeira, um velho elegante fumava um charuto cubano.

- Então, Rodriguez e Sancho estão mortos?
- Sim.
- Você os matou?
- Sim.
- Hehehe... Faz algum tempo que não vejo um jovem promissor como você. Preciso de alguém habilidoso para buscar os lucros do contrabando. A polícia vai desconfiar da alta quantia monetária que vamos estar transportando... Então, precisamos de uma boa distração. Você me entende?
- Entendo.
- Gomes lhe passará as informações sobre a operação. Espero o seu sucesso.
- Obrigado pela confiança... "pai".

Quatro dias depois, a operação teve início. O novato não estava na sua posição. Nocauteou o motorista que dirigia um dos carros que continha parte do dinheiro. Fugiu para casa, buscou a irmã e o irmão. Colocou uma determinada quantia na mochila dos dois.

- Vocês vão ter que aprender a se virar sem mim. Compre os remédios da sua irmã, e partam para casa.

Deixou os irmãos na rodoviária. Não iria com eles. Sabia que seria caçado por Dom Juarez, não queria colocá-los em perigo. Acendeu um cigarro e olhava o ônibus que fazia a travessia Curitiba-Pirajú partir. Conforme os pneus do veículo se afastavam, outros pneus chegaram. Eram os homens. O novato virou para trás, tirou a arma de sua jaqueta e começou o tiroteio mortal. Seria difícil derrotar Dom Juarez, mas, se existe alguma possibilidade disso acontecer, esse feito só poderia ser atingido por um guerreiro de nascença, um nativo de Pirajú.
 

domingo, julho 15, 2007

Conto: Pancadão de arrependimento

Paulo era um carioca atípico, e sofria bastante com isso. Apaixonou-se por uma garota, na escola, e tentou uma aproximação. Na saída da aula, abordou a menina em uma certa parte da escola, onde quase não havia tráfego de pessoas.

- Oi, meu nome é Paulo.
- Oi.
- Reparei que tu estás ouvindo música nesse teu iPod. O que ouves?
- Ah, tô ouvindo pancadão.
- Pancadão?
- É. Pancadão. Não gosta?
- Bom, eu prefiro outros tipos de músicas... Românticas e belas como você... Gosto de Chris de Burgh. Conhece?
- Hahahahahahahahahaha!
- Que foi?
- Caraca, que vacilo! Escuta aqui, tá pensando que vai conseguir algo comigo, assim? Que cantada mais tosca!
- Mas, mas...
- Se liga, mané! Não quero nada com um molengão feito você!

Paulo sente seu coração encher-se de ódio. Tira da mochila uma faca de cozinha, daquelas grandes, e enterra na garganta da garota. Enquanto ela agoniza, Paulo, entusiasmado, começa a cantar.

- Esse é o meu lado, que ninguém sabe não, quando eu tô irritado, eu viro do pancadão. Eu quis te dar amor, mas tu num aceitou nada, ainda fez pouco de mim, por isso levou facada. Tchuchuca toma cuidado, que eu não dou mole não, eu não fico acuado, eu te ponho num caixão. Se tu só gosta de sexo, pois então tomou no cu, agora tu só vai ver, é o pênis do Belzebu. Por quê? Tchuchuca, dessa vez tu te deu mal, eu quis te dar meu amor, mas tu só queria um pau! Tchuchuca, dessa vez tu te deu mal, eu quis te dar meu amor, mas tu só queria um pau! Vai, Lacraia, vai!

Paulo foi embora rindo e cantando, enquanto a garota derramava lágrimas de arrependimento pelo seu comportamento devasso e elitista.
 

sexta-feira, julho 13, 2007

Conto-reflexivo: Sonhos de criança

Jorge tinha 8 anos quando viu a seleção brasileira de futebol do ano de 1982. Ficava maravilhado com os lances de Zico, Careca, Sócrates e vários outros. Mesmo o Brasil não tendo ganho a copa do mundo da época, Jorge estava suficientemente inspirado para tornar-se jogador de futebol. Treinava cerca de 4 horas por dia, sem exceção. Alimentava o sonho de chegar à seleção brasileira. No final das contas, hoje em dia, Jorge atua como pediatra, e mal se lembra como chutar a bola. Se as pessoas fossem eternas crianças, todos seriam jogadores de futebol ou astronautas.
 

terça-feira, julho 10, 2007

Conto: Agradando uma mulher

- Pra pegar mulher, tem que ter carro, Fernando.
- Carro?
- Isso, elas gostam de carro!

Seguindo os conselhos do amigo, Fernando pega um fusca emprestado de um outro chegado seu, que era mecânico.

- Empresta o fusca, rapaz. Não vou destruir ele, não.
- Porra, Fernando. Já te falei que não vais pegar mulher com essa lata-velha.
- Não esquenta. Só preciso do material, a técnica pra satisfazer mulher eu sei.
- Tá, vou na tua. Mas ainda tô duvidando que vás conseguir agradar uma mulher com isso. Tá aqui as chaves dele.
- Valeu, gente boa. Pode deixar comigo.

Fernando saiu dirigindo pelas ruas da cidade, olhando atentamente as calçadas, procurando alguma mulher que lhe chamasse a atenção. Foi atraído por uma jovem cocota cheirosa e sedutora, branca e com cabelos negros. Parou o carro perto dela e propôs:

- Que tal uma voltinha, meu bem?
- Como?!
- Uma voltinha aqui, no meu fusca. Que tal?
- Tio, fala sério, né?
- Tô falando, chuchuzinho. Vem cá, vem.
- Se liga, tio. Eu só ando de carrão, com motorista e tudo mais. O que um pé-rapado como tu pode me oferecer?
- Ah... Então tu só te satisfazes com carrão e motorista?
- Duh! É claro, né!
- Tá bem...

Fernando puxou a menina para dentro do fusca, tirou o canivete que tinha no bolso e esfaqueou a garota diversas vezes. Desovou o cadáver na frente do Instituto Médico Legal e saiu em disparada para a casa do amigo.

- Fernando, já voltaste?
- Tá aqui o fusca, mas vais ter que desmontar.
- Que houve?
- Sujou a paradinha.
- Porra, Fernando! Não fode!
- Tô falando a verdade! Dá um sumiço no fusca.
- Caralho! Tinhas que matar justo no meu fusca?
- Não esquenta. Depois eu arranjo uma graninha pra te compensar. Agora, tenho que comprar uma roupa bonita e fazer o que é de costume.
- Tá certo. Vai lá. Deixa que eu resolvo aqui.

Fernando comprou um bonito conjunto de roupa, a fim de preparar-se para o que era de costume. No dia seguinte, foi ao velório da moça que havia matado, e viu o caixão sendo colocado no carro funerário. Certificando-se que não havia ninguém por perto, chegou perto do caixão e disse baixinho:

- Pronto, meu bem. Arranjei um carrão e um motorista só pra ti. Faça bom proveito.

Fernando saiu rindo incontrolavelmente, e era menos uma garota interesseira no mundo.
 

sexta-feira, julho 06, 2007

Conto: O copo d'água

- Me dá um copo d'água aí, amigo.
- Aqui não tenho isso... Tenho um galão de água, 20 litros, tá custando 4 Reais. Vai?
- Não, não. Me arranja só um copo d'água, por favor.
- Tenho não, amigo. Vais ficar sem.

Outras freguesias vão chegando, o homem atendendo todas, mas sempre distraído.

- Não vai me dar o copo d'água, não? Tô pedindo há meia-hora.

Pausa para o almoço. O homem pega sua marmita e começa a comer... Interrompido, claro.

- Ô, moço! Será que num veio um copo d'água nessa sua marmitinha?

Volta à atividade, os fregueses se aproximam para comprar as coisas.

- Eu quero um copo d'água, por favor!!! Já tô cansado de pedir!

Final de tarde, a loja está fechando, nenhum freguês por perto.

- E então, moço? Vai me arranjar o copo d'água?

O homem certificou-se de que não havia ninguém por perto.

- Espere um pouco, vou lá nos fundos da loja buscar pra ti. Não sai daí.
- Oba. Até que enfim.

O homem volta com a garrucha que foi presente de seu avô, e diz pro pedinte:

- Tu peças pra Jesus, que Ele tem de tudo por lá.
- Num faz isso não, moço.
- Faço, sim!

O homem deu dois tiros de garrucha no pedinte, que agonizava no chão. O atirador deu no pé, a fim de que a polícia não o capturasse. Logo acionaram uma ambulância, pois repararam que o ferido estava sangrando demais. Botaram o coitado no veículo, mas ele chegou morto no hospital. Não de hemorragia, mas de desidratação.