quinta-feira, outubro 11, 2007

Conto: Sempre igual

Ele olha para os cabelos da garota. As mechas balançam soltas ao vento, negras, mas com um brilho suave e confortante. O cheiro lembra o de flores molhadas, depois que a chuva vai embora. Era assim, naquela tarde nublada, onde os dois olhavam para o horizonte. Ele fitava o rosto dela, um rosto delicado, angelical. Ela pergunta, enquanto sorri, meigamente.

- Então... O que você queria me dizer?
- Bom... Eu... Te amo.
- ...olha, nada contra você, mas... não é isso que eu quero.
- É pica.
- Oi?
- É pica! É pica que tu queres, né?
- Hã?
- Pica ou dinheiro... Um dos dois... Quem sabe, ambos.
- Olha...
- Vai te fuder!

Ele tira a faca da mochila. Já estava preparado, caso isso acontecesse; não seria a primeira vez. Depois, seguiu os impulsos. Era incrível como ele fazia isso rápido. O esbravejante xingamento ainda ecoava no ar, quando ele havia terminado. A camisa branca da garota ficando lentamente vermelha, os olhinhos dela se fechando, uma expressão de dar pena. Ele, frio. Estava acostumado. Deu as costas, foi-se embora.

- Porra, é sempre isso! É sempre igual! Bando de putas!
 

terça-feira, outubro 09, 2007

Conto: Estudo

Na biblioteca da escola, William se espreguiçava.

- Porra, William! Biblioteca é lugar de estudar! Que tu faz aqui na maior vagabundagem?
- Tá o maior sol, lá fora. Aqui tem ar-condicionado. Melhor ficar aqui.
- Se liga, pô! Amanhã tem prova de química! Já viu o tamanhão da matéria pra estudar?
- Já. É bem grande.
- Então! Vai estudar! É pra ler os 5 últimos capítulos do livro.
- Fica calmo, eu sei o que tô fazendo.
- Tu que sabe... Vai se dar mal na prova.
- Vou, não. Aí, olha só! Deu uma nubladinha, vou aproveitar e ir pra casa. Até amanhã.
- Até, William... Mas tô falando, tu vai te ferrar na prova.

O amigo de William ficou estudando por mais 6 horas. Depois, foi pra casa.

No dia seguinte, a prova. William chega calmo, o amigo está tenso.

- Cacete, não sei como tu vai fazer isso sem ter estudado... É muita matéria.
- Porra, deixa de frescura. Já te disse que tá de boa.

A prova começa. Todos os outros alunos começam a pôr os livros de química sobre a mesa. O amigo de William estranha.

- Mas que porra é essa? Vão colar assim, na cara dura?
- A prova é com consulta. O professor passou aqui no final da aula, ontem, pra avisar.
- Cacete... Eu tinha ido pra biblioteca essa hora... E não trouxe o livro, hoje.
- Pô, te deste mal.

Dá branco na cabeça do amigo de William, que não consegue resolver uma questão da prova. Todos os demais alunos, com o auxílio do livro, resolvem a prova por completo, tirando notas somente de 9 para cima. Após receber a única nota 0 da turma, o amigo de William começa a chorar.

- Pô, cara... Chora não... Isso vai aliviar tua dor.

William entrega um revólver ao amigo, que se suicida. Os portões do além-vida recebem mais uma alma dilacerada pelo estudo.
 

quinta-feira, outubro 04, 2007

Conto: O "vacilão"

Naquele bairro pobre, qualquer compra acima de 100 Reais já era motivo pra se gabar. Gabrielzinho sabia disso.

- Tá chegando o Natal, e meu pai vai comprar aquele carrinho de controle remoto. Vou ser o primeiro garoto daqui a ter um brinquedo caro e legal. Morram de inveja!
- Hahahahaha! Impossível, Gabriel! Aquilo custa mais de 100 Reais, e seu pai nuuuuuuunca vai poder comprar!
- Claro que vai, Uélito! Ele tá economizando há muito tempo, e vou humilhar todos vocês quando eu ganhar meu presente!

O tempo passa. Dois dias antes do Natal, o pai de Gabrielzinho sai pra comprar o brinquedo do filho. No caminho de ida para a loja de brinquedos, o homem é abordado por um traficante mirim, primo de Uélito, que acerta três balas na vítima e foge com o dinheiro do carrinho.

Nunca houve um Natal tão farto na vida de Uélito e seus amigos, que ganharam uma grande ceia natalina, comprada com o dinheiro do furto. Todos se divertiram bastante naquele dia, menos Gabrielzinho, que perdeu o pai e ainda levou uma surra dos garotos, "pra deixar de ser vacilão".