Conto: Que nem o pai
Bastião tentava provar pros amigos da roça que o seu destino seria diferente.
- Procês vê, eu num vô virá cortadô di cana que nem ocês!
- Dexa disso, Bastião! Sabe muito bem que nós num tem como arranjá otro imprego por essas banda.
- Por essas banda, num tem. Mas vô pra cidade grande, virá cantô, como meu pai.
- E eu posso sabê quem disse que seu pai foi cantô, Bastião?
- Minha mãe, pra sua informação! Meu pai foi cantô de sucesso, di fazê muito dinhero, mais morreu moço e num vortô pra roça.
- E como ocê sabe que é verdade, Bastião?
- Intão num creditem! Eu vô pra lá cantá musica caipira, ganhá dinhero e busca minha mãe. Vô chegá di carro e passá no canaviar pra mó di rir docês tudo. Aí ocês vão vê que sô fio di artista mesmo.
Bastião dá as costas aos amigos e vai para casa.
- Mãe, ô, mãe! Pruquê será que os amigo num creditam que o pai for cantô de sucesso? Já falei pra eles que vô sê como ele, ganhá dinhero e mudá di vida.
- Sebastião, meu fio, eu tenho que ti dizê... Seu pai queria muito sê cantô, foi pra cidade, mais num conseguiu nada... Ele ficô muito invregonhado e pidiu antes de morrê pra eu ti dizê que ele foi cantô de muito sucesso, mais eu num quero vê ocê faiá que nem ele faiô.
Para Bastião, foi um choque. Ele cresceu desiludido, e acabou virando bóia-fria como seus outros amigos, que o humilhavam diariamente, por ter contado vantagem antes do tempo. Bastião suicidou-se pouco tempo depois.

