quinta-feira, novembro 15, 2007

Conto: Saidinha

José estava com a namorada. Resolveu dar uma saída.

- Bom, eu agora eu vou sair, ir pra casa de um amigo.
- Fazer o quê?
- Sei lá, pô. Conversar, ouvir música... Faz tempo que não faço isso.
- Ah, amor... Mas você pode fazer aqui, comigo.
- Não, não... Faz tempo que não visito os amigos. Tenho que botar o assunto em dia e tal. Sabe como é.
- Poxa... Tu quase não fica comigo.
- Ô, caralho! Eu te vejo todo dia!
- Mas... É pouco.
- Porra! Quer controlar minha vida? Quer controlar?!
- Calma, não precisa se estres... argh!

A lâmina fria havia passado pela carótida da garota.

- Filha da puta! Vai encher o saco do tinhoso, agora!

José arromba o apartamento do vizinho bêbado recém-divorciado, já conhecido na delegacia por várias ocorrências de agressões físicas à mulher, e deixa o corpo da namorada agonizando ali, aproveitando que o vizinho dormia por causa da ressaca do noite anterior.

- Escuta, amor. Os outros vizinhos vão pensar que a bebida fez ele enlouquecer e agredir outra mulher. Como de praxe, vão chamar a polícia e apenas direi que você errou de apartamento e entrou no covil desse bêbado psicopata. Eu ouvi seus gritos, mas cheguei tarde demais, tudo o que pude fazer foi nocauteá-lo, mas ele havia te ferido mortalmente.

Lágrimas saíam do rosto da garota, ela sentia a vida abandonando-a.

- S-s-seu monstro...

José pega o celular.

- ALÔ? EMERGÊNCIA? POR FAVOR, MINHA NAMORADA FOI GRAVEMENTE FERIDA! PRECISO DE UMA AMBULÂNCIA, VENHAM RÁPIDO, POR FAVOR! O ENDEREÇO É...

A garota ouvia cada vez menos, tudo ia ficando escuro.

- Pronto, amor. Eles estão vindo. A polícia deve demorar um pouco mais. Não se preocupe porque... Opa! Meu celular! ... Alô? Aí, cara, tudo beleza? Não, pô. Tô indo aí, já. Vou só resolver uma coisa aqui e... Minha namorada? Que nada, ela não vai ficar braba. Pode ficar tranquilo. Daqui a pouco tô saindo, até mais. ... Amor, chegando a ambulância eu tô indo, viu? Ei, amor? Oi?

Ela já não estava mais consciente. José vai até a janela. Ouve o som das sirenes e pensa.

- O que a gente não faz pra poder dar uma saidinha, hein!