Conto: Tempo de vida
O velho Caxias, sempre incomodado pelas atitudes de seu jovem vizinho Maurício, voltava a reclamar:
- Ô, moleque filho da puta! Vai atirar esse rojões na puta que te pariu!
- Qual é, vovô? Perdeu o espírito do ano novo? É época de paz, purificação da alma... Os fogos de artifício representam isso.
- Pra mim, essa comemoração é um bando de baboseira junto!
- Ah, tô entendendo... O senhor tá no fim da vida, temendo a vinda da morte. Tem medo que ela esteja escondida num simples rojão. Um infarto pelo susto do barulho, talvez? Quem sabe? Hahahaha...
- Moleque desgraçado!
- Fica calmo, velhote. Vou comemorar o ano novo com muita bebida e rojões, comemorando cada breve explosão dos fogos como a brevidade da tua própria vida! Hahahaha! A gente se encontra no teu velório!
Caxias chora. Estava Maurício certo? A morte chegando, o vigor de outrora indo embora, junto com o apreço pelas comemorações. É tão cruel e injusto assim, vendo o mais jovem zombar impiedosamente do mais velho? E nutre o choro.
É chegada a virada do ano. O embriagado Maurício, no esplendor da juventude, abre a caixa dos rojões, jogando-os ao redor do seus pés. Pega um deles, acende e mira para o céu. Um deslize e o rojão cai. As faíscas acendem os outros, deixando o rapaz no meio de um fogo cruzado. Diversos estilhaços dos rojões acertam a artéria de Maurício, levado às pressas para o hospital. A quantidade de sangue perdido era grande demais, e o óbito do jovem foi declarado na primeira hora do ano novo.
Pouco depois, os parentes e amigos velavam o corpo. Dentre os presentes, lá estava o velho Caxias, rindo, sabendo que a vida é imprevisível, incontrolável e joga do jeito que ela achar melhor. E ela achou melhor dar uma lição no imodesto Maurício, que quis prever o imprevisível, deixando que a alma do rapaz presenciasse o velho Caxias cuspindo no seu cadáver, rindo, rindo e rindo, no esplendor de uma vida longa e bem-vivida, que joga ao lado do acaso e da sorte.


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