sexta-feira, janeiro 19, 2007

Geschichte: Einziehen der Versuchungen

Maciel foi visitar Alfredo, seu velho amigo de infância. Tinham muitas coisas em comum, mas, das em que divergiam, a mais notável era a religião. Enquanto Maciel era católico fervoroso, Alfredo era ateu. Embora o religioso se sentisse desconfortável com a escolha do amigo, esse fato nunca atrapalhou a amizade entre os dois.

- Bom dia, Alfredo. Como tem passado?
- Muito bem, Maciel. Obrigado. Estou almoçando, agora. Não quer se juntar a mim?
- Vim só te ver, Alfredo. Não quero incomodar.
- Deixa disso, homem! Você nunca incomoda. Vem! Vamos pra mesa!

Maciel, depois da relutância, acabou por aceitar o convite do amigo. Chegou à mesa e viu vários pedaços suculentos de filé.

- Vamos, Maciel! Pode se servir à vontade!

Maciel estava receioso, o que instigava Alfredo.

- O que foi? Algum problema?
- É que... Hoje é sexta-feira santa, Alfredo.
- Ah, sim, sim... Esqueci que sua religião não permite comer carne, nesse dia.
- É... Que pena.

Que pena, mesmo. Alfredo tinha fama de melhor cozinheiro da região, e o seu filé tinha um gabarito impecável.

- Mas não tem problema, não, Alfredo. É só eu não comer filé.

E os dois sentaram-se à mesa. Encheram os pratos e ora comiam, ora conversavam. Maciel estava meio desconcentrado. Sua mente pensava em outra coisa. Para ser mais exato, pensava no filé. Bem passadinho, com aquele molho... Uma tentação.

- É isso! Tentação! Só pode ser o diabo atentando! Xô, tinhoso! - pensou Maciel.

Mais garfadas e palavras foram desferidas, naquele almoço, e conforme o tempo passava, mais Maciel voltava a atenção para o filé.

Quando os dois terminaram de comer, Alfredo notou que ainda havia uma boa quantidade de filé, ainda.

- Bem, acho que vou guardar pro jantar.
- NÃO! NÃO VAI! - gritou Maciel.
- Calma, homem! Por que isso?
- Porque... Esse filé... É MEU!

Maciel, como um integrante da vara de porcos possuída pelo capeta, avançou no prato do filé. Devorou todos os pedaços de carne, insanamente, vorazmente, usando as próprias mãos e dentes, voltando aos costumes antigos dos homens, quando nem religião havia, ainda. E se não havia religião, não havia o religioso. Assim, Maciel fez. Deixou o catolicismo de lado. Virou ateu, como o seu amigo Alfredo.

Até hoje, reza a lenda de que nem o próprio diabo faz um filé tão tentador quanto aquele.