segunda-feira, maio 28, 2007

Geschichte: Der Meister

"Campeão" era como o chamavam. O apelido saiu por acaso, quando foi cumprimentar um amigo.

- E aí, Marcão? Tudo certo?
- Na santa paz, campeão.

Falou por falar, falou sem pensar, mas o apelido ficou. Era curioso, já que Campeão nunca havia ganho uma competição, em toda a sua vida. Um fato que chamava a atenção de muita gente.

- Por que "campeão"?
- Sei lá... Inventaram. Só sei que me chamam assim.

E, de boca em boca, a notícia foi se espalhando.

- ...ele nunca ganhou nada, mas só chamam ele de "campeão".
- E é muita gente?
- Ô! Um monte!
- Então, eles devem estar certos. O sujeito é um campeão, mesmo.

Campeão ganhou uma notoriedade cada vez maior, e logo chegou aos ouvidos do congresso político brasileiro.

- Meus caros amigos, proponho que hoje votemos para transformar Campeão em nosso herói nacional.

E foi assim, nenhum voto contra. Surgiu no Brasil um novo feriado, junto com o novo herói. Fizeram até um samba-enredo dele, e a escola que fez foi campeã, assim como o homenageado.

Não há explicação para o que aconteceu com Campeão... É que, às vezes, a vida é assim, inesperada.
 

sexta-feira, maio 25, 2007

Geschichte: Unhöflicher Held

Josias fez o curso de fotografia, que uma escola profissionalizante ministrava, perto de sua casa. Foi recomendação de um amigo, após Josias ter perdido o emprego.

- Vai lá naquela escola, Josias. Eles têm um monte de cursos, lá. Escolhe um que tu gostares. Depois, quando tu completares o curso, podes abrir teu próprio negócio. Vale a pena.

Com o mercado de trabalho apertado, Josias seguiu o conselho do amigo.

Começou com um pequeno estúdio. Ficava em um bairro comercial, e sempre apareciam pessoas para tirarem fotos para documentos, currículos, carteirinhas e afins. Visando expandir seu negócio, Josias comerçou a marcar presença em eventos sociais, tornando-se em pouco tempo um fotógrafo de renome. Ele era inteligente, e subiu muito rápido na carreira. Chegou a uma boa posição. Virou fotógrafo de modelos. Quanto mais fotografava, mais fama ganhava. Chegou às top models. Mas Josias não se sentia confortável no mundo da moda. Sentia pena das modelos. No seu primeiro dia com uma top model, ele a viu se olhando em um espelho.

- Bom dia. Vamos começar?
- Ai, não sei... Eu pareço tão... Gorda.
- Como?!
- Eu estou gorda!
- Claro que não! Tu estás ótima!
- Ai, meu Deus... Nunca mais vou comer!

A modelo começa a chorar, enquanto Josias estava espantado. A garota mal parecia chegar aos 45 quilos. "Será que essa moleca é cega?", o fotógrafo chegou a pensar. Indignado com aquela cena de choro, Josias toma uma atitude.

- Escuta aqui, sua magricela de merda, por que tu não desistes de ser modelo? Tu és tão fina que nem dá pra saber quando tu estás de lado ou de frente.

A modelo pára de chorar.

- O QUÊ???
- Isso mesmo, sua putinha unidimensional, sua reta ambulante! Esse teu cabeção nesse corpinho te faz parecer um palito de fósforo, daqueles bem fudidos, que a caixa custa 20 centavos!
- MAS QUE FALTA DE RESPEITO É ESSA???
- E tem mais, aposto que se eu te botar numa caixa e postar nos Correios, o frete sai grátis pra qualquer lugar do Brasil. Sabe por quê? Porque tu és só um monte de osso, seu banquete de vira-lata! Sai daqui antes que eu abra a janela e o vento saia te levando por aí!
- Seu... Seu... Grosso!!!

A modelo dá um forte tapa na face de Josias.

- É assim? Cansei de ser bonita! Vou pra casa e me encher de comida! Vou comer até explodir!

A mulher sai e bate forte a porta do estúdio.

Muitos acham que Josias é apenas um grosseiro, mas, na verdade, é um herói do combate à anorexia.
 

segunda-feira, maio 21, 2007

Geschichte: Schlaflosigkeit

- Dirceu!
- Hmm...
- Acorda, Dirceu! Acho que tem um homem lá embaixo... Ouvi barulhos.
- Deve ser esses barulhos da noite, Cláudia... Vê se dorme.

- Dirceu!
- Hmmmmmmmm...
- Eu ouvi de novo! Vai lá em baixo ver.
- Tenho certeza que não é nada! Se fosse bandido, já tinha subido aqui e matado a gente! Volta a dormir!

- Dirceu!
- Ai, meu Deus! De novo?!
- Mas é o mesmo barulho, e tá mais alto, agora... Não vou conseguir dormir enquanto esse barulho continuar. Já pensou se é mesmo um bandido? Desce lá, meu bem!
- Tá, tá! Eu desço! Porra! Será que não vou dormir hoje?

Dirceu desce e descobre um rato, correndo pelas panelas que estavam no escorredor de louça. Rato é bicho esperto, e às duas da matina, estando com sono, é difícil pegar um desses.

- Não vou me dar esse trabalho... E se o rato vai continuar, a Cláudia também.

Dirceu abre a porta de casa e dirige-se à parada de ônibus. Deita lá, como um mendigo, e dorme. Tranquilo. Sem perturbações.
 

domingo, maio 20, 2007

Geschichte: Und das Teil unten?

- Bota o capacete, meu filho.
- Porra, mãe! Já disse que não gosto!
- Mas, meu filho... É pra sua segurança.
- Mas não gosto! Aquilo é apertado, me dá agonia!
- Eu vou ficar muito triste se você não botar o capacete...
- Tá, tá! Eu ponho o capacete... Assim, tá bom? Posso ir agora?
- Ai, que bom. Agora, pode ir, sim.
- Porra, até que enfim.

Pegou a moto e saiu dirigindo. Sentiu o aperto do capacete, aquela agonia. O fluxo de sangue no cérebro começou a ficar lento, a vista começou a escurecer, o controle do corpo começou a falhar. O homem que não controlava nem a si mesmo, não pôde controlar a máquina. Ela parou debaixo de um caminhão, pegou fogo, explodiu. O capacete não cedeu, mas nem só de cabeça é feito o homem. Morreu por causa das costelas, que perfuraram alguns órgãos internos. Um dia, ainda inventam uma armadura pros motoqueiros.
 

quarta-feira, maio 16, 2007

Geschichte: Im alten Griechenland

Kostredimes iniciava o diálogo com o esquilo voador.

- E então, meu caro amigo animal, longe das impurezas tangentes à dita racionalidade dos humanos.
- Hã?
- Sabeis que no âmago da ignorância reside a pureza?
- Do que estás falando?
- Penso, disserto e dialogo sobre a maldade vinda do pensar.
- Kostredimes, fumaste alguma nóia?
- Estou sóbrio, caro amigo.
- ... seguinte, Kostredimes. Estás ligado que sou só uma alucinação tua, não é?
- Como assim?
- Pô, tu mesmo me criaste. Um esquilo voador que fala, pra tu poderes discutir filosofia e criar um diálogo. Acontece que não sirvo pra isso, cara... Não sou como aquela tartagura homossexual do Aquiles.
- Não entendo a sua relação entre homossexualidade e filosofia.
- Caralho, Kostredimes! Larga de querer ser famoso como esses velhos! Atenas tá cheia de cocotinhas gostosas e insatisfeitas com a população masculina sexualmente ativa. Esse pessoal tá se desviando do heterossexualismo. Tu tens que dar continuidade à vida! As fêmeas de Atenas precisam de ti!
- Não sei, meu amigo esquilo... Será tão impura a minha função?
- Seguinte, estás ligado que a gente não nasce do nada, certo? A gente nasce das fêmeas... E alguém tem que fecundar elas. Toda vez que tem guerra, a gente só leva porrada. Sabe por quê? Porque o pessoal daqui prefere ficar pensando na vida do que se preparando pra uma boa briga! Parece até que nunca viram um filme do Van Damme e...
- Filme? Van Damme?
- Esquece, Kostredimes. Essas coisas ainda não foram inventadas. Deixa eu continuar meu raciocínio, agora... Bem... Como eu ia dizendo... As guerras matam muitos dos nossos homens, e os que sobram não dão conta do recado. Assim, pouco a pouco, a população de Atenas vai ser dizimada. Vais querer isso?
- Bom... Não é sensato deixar a cidade sem população...
- Tô dizendo, rapaz! Tu és abençoado, Kostredimes. Vais dar vida à muitas gerações, mas vais morrer no anonimato. Ninguém vai se ligar no que tu fizeste, só no que os velhotes pensaram e dissertaram sobre inutilidades.
- Mas a filosofia tem sua utilidade...
- Não se não tiver vida, Kostredimes! Agora, vai! E vê se muda esse teu linguajar formal, estás muito viadinho assim.
- Podes crer... Vacilei feio.
- Tô dizendo. Se lembra do que te ensinei e Atenas terá vida longa.
- Pra uma alucinação, tu és bem maneiro, esquilo.
- Pois é... E aproveita pra fecundar geral que ainda não existe lei de pagar pensão.

E Kostremides partiu, numa valente jornada para fecundar as mulheres de Atenas e garantir a vida na Grécia. Ele atuou por mais de 30 anos, quando foi assassinado por traçar a mulher de um espartano. Embora tenha morrido como um guerreiro, seu nome jamais fora citado na história, diferente dos daqueles velhos pedófilos.
 

domingo, maio 06, 2007

Geschichte: Er und sie

Ela estava olhando para a janela, não pela janela, mas para a própria janela; a moldura, o vidro, e as gotas de chuvas ali pregadas. Ele entrou pela porta. Haviam se conhecido muito tempo atrás, conversado pela primeira vez muito tempo depois, mas em pouco tempo ela entristeceu a vida dele. Ela não se espantou por ele estar ali, e ele se espantou por ela não ter se espantado. Será que ela sabia? Se sabia, por que não faz nada? Por que não tenta se defender? Ele puxou a arma, ela não fez nada. O desconforto tomava conta dele. Queria vingança, e que vingança insossa é essa, onde a vítima nem sequer mostra emoção? Talvez, ela soubesse do seu erro, da vida que levava... Por isso, achou conveniente que tudo terminasse ali. O rapaz achava-se justiceiro, queria mudar o mundo, eliminar as pessoas ruins... Mesmo que ele se tornasse uma delas. Pensou se ela não estaria arrependida, se haveria outra chance. Viram-se em um filme. Não existe o pensar, apenas seguir o roteiro. Apesar de ambos sentirem-se desconfortáveis, tinham que cumprir suas funções; ela morreria sem resistência, e ele mataria sem vontade. Olhou para o rosto dela pela última vez, das tantas vezes que ele ficou tanto tempo olhando tanto. E tocou na face dela, pela primeira vez. Estava fria, antes mesmo da morte. Já não tinha aquele calor de quando se conheceram. Ele deu o primeiro e último beijo nos lábios da garota, pediu perdão por erros passados e presentes, e só então atirou. Enfim, ela havia morrido. Ele saiu do lugar, chorando... Sabia que não tinha mais nada na vida... O amor havia sido destruído.
 

sábado, maio 05, 2007

Geschichte: Fliegensaucer

Francisco chegou cansado do roçado. Entrou na casa e encontrou apenas a mulher.

- Cadê o Bastiãozinho, muié?
- Num sei. Ele num tava lá pelo roçado?
- Tava não. Cabei de vim de lá.
- Intão onde será que esse minino se meteu?
- Eu tô ficando precupardo co essa história... Vou lá procurá o minino.

Francisco sai da casa e dá mais uma procurada na roçado. Vê Sebastião parado, atônito.

- Ô, minino! Pruque ocê num avisô sua mãe que vinha pra cá?
- ...
- Ô, minino! Responde!
- Ah... Pai...
- Que ocê tem, Bastiãozinho? Tá istranho.
- Eu vi um disco, pai... Ele veio de riba do céu... Saíro uns bicho cabeçudo... Eles dissero pra nóis ir embora daqui... Eles vão queimá tudo...
- Bastiãozinho, ocê tá co febre? Tá co delírio?
- Pai, num tô! Eu vi os homezinho cabeçudo que dissero que ia fazê isso!
- Óia, filho... Eu sei que ocê inda é criança e imagina as coisa... Mas num é bonito ficá mintindo por aí.
- Num tô mentindo, pai! Os bicho vão queimá tudo! Vamo pegá a mãe e ir embora!
- Já chega, Bastiãozinho! Vamo pra casa! E nem mais uma palavra disso!
- Mas, pai...
- Num discute co eu, minino! Ou ocê vai levá surra!

Sem acreditar no filho, Francisco arrastou a criança de volta para casa. Naquela noite, o menino não conseguiu dormir. Tinha pesadelos mesmo acordado, gritava, gritava.

- Tão vindo! Tão vindo!
- Calaboca e dorme, minino!

E vieram. O homem não conhece como aconteceu. Talvez possa dizer o que aconteceu, mas não como aconteceu. Aquele povo está muito à nossa frente... E bastou aquela luz para tacar fogo em tudo. Não foi um incêndio, cujas chamas expandem-se... Foi algo breve, simples. Foi como um pincel molhado de vermelho, que rapidamente riscou uma tela... Um raio. Somente aquela área avermelhada, depois mais nada. Não tinha mais roçado, não tinha mais casa, nem Francisco, nem mulher, nem Sebastião.

Os homens fazem-se céticos em busca da razão, mas de tanta razão, ficam cegos e abraçam a insensatez.
 

quinta-feira, maio 03, 2007

Geschichte: Glück über alles

Paulo e Pedro cursavam a faculdade de medicina. Paulo era esforçado, bastante aplicado nos estudos, e entrou na faculdade com muito mérito. Pedro era o oposto, entrou na faculdade por sorte, e abominava estudar. Este jeito de Pedro irritava bastante Paulo.

- O que pretendes ser na vida, hein? Um rapaz que não estuda nada, não está nem aí pra vida... O país não precisa de pessoas como tu.
- Sei não o que quero ser... E tô nem aí pro país.
- Pois eu sei o que quero ser! Quero ser um médico de sucesso! Quero fama, dinheiro e ajudar nosso país a crescer!
- Já eu, prefiro não estudar, não me esforçar. É perda de tempo. Quero é aproveitar a vida.
- Tô prevendo o teu futuro, Pedro! Ouça o que eu digo: Tu vais virar, no máximo, um mendigo.
- Tanto faz.

Paulo ficava indignado, mas sabia que o tempo estava a seu favor. Com o passar dele, logo chegaria o dia em que Paulo tornaria-se o renomado médico, enquanto Pedro falharia. Este dia traria bastante deleite a Paulo, que mal podia esperar. E assim foram acontecendo as coisas. Enquanto o primeiro estudava excessivamente, o segundo saía e conhecia várias pessoas novas. A cada ano, a raiva de Paulo diminuia e o estusiasmo aumentava.

Até que, finalmente, chegou o grande dia. Paulo recebeu o diploma, e Pedro não. Pensou em humilhar seu desafeto no mesmo momento, mas não.

- Ainda é muito cedo. Primeiro, vou arranjar um emprego no hospital mais conceituado deste estado.

Sendo esforçado e bem preparado, não foi difícil para Paulo conseguir o tal emprego. Agora, pouco a pouco, ele estava tornando-se rico e famoso. Só faltava encontrar Pedro, para, enfim, ter sua desforra. Entretanto, não conseguia achar o rapaz. Apenas sabia que ele estava desempregado, o que tornaria a desforra mais doce ainda, mas ainda precisava encontrá-lo. Infelizmente, para Paulo, Betinho encontrou Pedro antes. Betinho foi uma das pessoas que Pedro conheceu, na faculdade.

- Pedro! Já faz um tempinho, hein?!
- Betinho! Faz mesmo! Como vais?
- Vou bem. Segui a carreira do papai, virei deputado federal.
- Eu também queria dizer que ando bem, mas estou desempregado.
- Sério?
- Sério.
- Não mais, Pedro. És um grande amigo, não vou te deixar na mão. Vamos no meu escritório que eu te arranjo uma peixada e te coloco num cargo alto, em algum emprego.

Acabou que Betinho transformou Pedro no diretor geral do "hospital mais conceituado do estado". Foi uma desagradável surpresa para Paulo, quando viu quem seria o seu novo chefe. Durante toda a sua gestão, Pedro obrigava o ex-companheiro de faculdade a trabalhar excessivas horas, diariamente, e a conviver com um salário ínfimo. Paulo chorava todas as noites, inconformado pela sua derrota. Terminou suicidando-se, estando na mais profunda depressão.

Alguns meses depois, Pedro lê um artigo no jornal: "Estatísta mostra que Brasil cresce três posições no ranking mundial de suicídios". Ao terminar a leitura, ele corre para o cemitério e põe o artigo na lápide de Paulo.

- Paulo, camarada. Deixo aqui este artigo, pra que te alegres sabendo que finalmente ajudaste nosso país a crescer. Um belo consolo, não achas? Bom, agora, se me dás licença, o "mendigo" aqui foi convidado para comer no restaurante mais caro da cidade, pelo prefeito. Não posso me atrasar. Até outro dia.

E a sorte sempre ganha do trabalho duro.